Vinte e cinco anos depois a lenda continua viva

quarta-feira, 1 de maio de 2019

Em todos os quadrantes do planeta, muitas pessoas tremem só de ouvir falar o nome de Ayrton Senna. Por esta razão, transcrevemos aqui um dos capítulos mais interessantes da saga de Senna. Oportunamente, pretendemos transcrever alguns capítulos polêmicos. Este, no entanto, é um daqueles que revelam porque Ayrton Senna significa tanto para tanta gente. Vinte e cinco anos depois da sua partida, a lenda, o mito, continuam cada vez mais fortes!

Vinte e cinco anos depois a lenda continua viva



Ayrton Senna: "Se contar eu nego" -

Este capítulo é uma parte do livro Ayrton Senna - O Herói revelado, onde se fala da face humanitário de Ayrton Senna da Silva. Ai vai.

 

"Se contar, eu nego." Esta era a condição inegociável que Senna exigia para ajudar as pessoas por quem se sensibilizava. Sigilo total. Imprensa, jamais. Uma discrição absoluta que se estendia até mesmo para o âmbito da família e dos assessores de confiança. Um compromisso que perdurou depois de sua morte, a ponto de dona Neyde, quase uma década depois de Imola, continuar declinando educadamente quando alguém sugerisse que ela tornasse, enfim, públicos certos gestos de caridade do filho.

Julian Jakobi não revelou os valores, mas confirmou que Ayrton, de tempos em tempos, costumava ligar para ele de algum lugar do planeta e pedir que doasse dinheiro para instituições ou pessoas. Durante os conflitos da Bósnia, no início dos anos 90, Senna ligou e orientou Julian para que ele ajudasse as crianças vítimas da guerra. E, como sempre, determinou: - Não fala nada disso para o Fábio. O primo Fábio Machado, principal responsável pelos negócios de Ayrton no Brasil, não ficava sabendo. E quando recebia ordem de Senna para mandar dinheiro para alguma pessoa ou instituição no Brasil ou do exterior, ela também vinha acompanhada de uma determinação: - Não fala nada disso para o Julian.

Todas as pessoas íntimas de Ayrton guardavam a mesma impressão: Ayrton detestava a possibilidade de seus gestos de caridade serem interpretados como promoção pessoal. Por isso, poucas pessoas souberam que, depois de numa reunião com Senna em seu escritório de São Paulo, no início dos anos 90, diretores da APAE, do Hospital do Câncer e da Associação de Apoio à Criança Deficiente receberam, cada um, 100 mil dólares. Nem todos os beneficiados conseguiram manter o compromisso de calar sobre sua generosidade. Na primeira vez em que esteve no hospital de reabilitação onde Linamara Battistella trabalhava, em Vila Mariana, São Paulo, Ayrton ficou encantado com o trabalho de assistência e resolveu ajudar: - O que eu posso fazer para ajudar vocês aqui? Linamara precisava de um equipamento de avaliação isocinética que custava algo em torno de 100 mil dólares. Parte dos recursos ela teria com a Secretaria Estadual de Saúde e outras fontes oficiais, mas faltava dinheiro. E Ayrton decidiu doar dez mil dólares.

A preocupação ia das crianças hemofílicas de São Paulo aos índios e seringueiros da reserva extrativa de Alto Juruá, no Acre, que receberam, em 1994, cerca de 50 mil dólares para a formação de uma equipe médica para a reserva. Em alguns momentos, a decisão de ajudar foi precedida de momentos de profundo sofrimento. Como no dia em que Ayrton visitou uma entidade de assistência a crianças portadoras de graves deficiências. De tão chocado com o quadro que viu, três irmãos portadores de graves deformações, Ayrton começou a passar mal e foi amparado pelas crianças que ele ajudaria.Voltou para a casa dos pais devastado com o que vira.

A reação do filho não surpreendeu dona Neyde. Desde a infância, Ayrton demonstrava um sentimento genuíno de compaixão pelos desfavorecidos. Como no dia em que um dos meninos pobres que moravam perto de sua casa, em Santana, bateu à porta. Era um Natal no final dos anos 60. Dona Neyde descobriu, nas palavras do menino, que Ayrton tinha cuidado do presente dele: - Vim buscar a bicicleta.

Dois meses antes de morrer, Ayrton manifestara a Viviane e ao resto da família o desejo de transformar aquela caridade sigilosa num projeto mais abrangente e duradouro para as crianças e jovens do Brasil. E dois meses depois de Imola, estaria criada, em Londres, a Ayrton Senna Foundation. Em 24 de novembro, em São Paulo, o Instituto Ayrton Senna. As duas entidades passariam a receber 100% dos royalties gerados pelo uso da marca Senna e da imagem de Ayrton Senna no mundo inteiro. Viviane, como presidente das duas entidades, convocou intelectuais, artistas, educadores e empresários para desenvolver as idéias e projetos inspirados no desejo original de Ayrton. Já em 1994, a receita das duas instituições foi de três milhões de dólares. Nove anos depois de Imola, o Instituto Ayrton Senna se tornou a única organização não-governamental brasileira a receber a Cátedra UNESCO em Educação e Desenvolvimento Humano, uma chancela rara concedida a entidades de destaque no apoio ao desenvolvimento humano. Única pessoa da família a não se afastar da mídia, Viviane passou a ser associada não só à do irmão, mas também ao trabalho de ativista na área da chamada "advocacia social".

O primeiro grande contrato do Instituto Ayrton Senna aconteceu já em 1994, quando a Fuji adquiriu licença de comercialização da imagem de Senna no Japão e gastou dois milhões de dólares para montar um memorial multimídia chamado "Senna Forever", que percorreu dez cidades do país exibindo preciosidades como as certidões de nascimento e óbito do piloto, a bandeira que cobriu o caixão, sua bíblia pessoal, o smoking usado na premiação do primeiro título, macacões das várias equipes, a pasta executiva, peças de sua casa, brinquedos eletrônicos, a camisa do Kashima Antlers que Zico autografara para ele em 1993, e até o kart usado por Senna no último campeonato mundial que disputou.

Junto com a exposição, a Fuji colocou à venda 60 mil camisetas com a imagem de "Senninha", cada uma delas a 39 dólares, enquanto o pôster "Senna Forever" custava dez dólares. O pacote de licenciamento incluía o livro oficial de fotografias feitas por Norio Koike, por 36 dólares, quebra-cabeças, casacos, camisetas, bonés do Banco Nacional, chaveiros, decalques, toalhas e bandeiras. Outro produto licenciado pelo instituto foi um sonho de consumo para poucos: a moto Ducati Senna 916, que teve somente 300 unidades produzidas na Itália, 30 delas importadas para o Brasil. A moto fora um dos últimos projetos de Senna e utilizava materiais de última geração, como a fibra de carbono. Preço: 39 mil dólares.

Aquela altura, além da moto Ducati, já tinham sido lançados um relógio sofisticado, uma bicicleta ecológica com gerador antipoluente, uma caneta de fibra de carbono, um barco offshore e uma linha de óculos. Nove anos depois de sua criação, ainda instalado no mesmo edifício Vari, construído por Ayrton na Rua Doutor Olavo Egídio, em Santana, o instituto controlava todo e qualquer uso das marcas e da imagem de Senna. No final de 2003, com o trabalho de cerca de 51 mil educadores, o instituto e seus parceiros na área institucional atuavam em 24 estados brasileiros, atingindo 3.375 escolas, entidades e universidades em 463 cidades. Mais de 977 mil crianças e jovens eram atendidos em programas de educação formal, educação complementar centrada em artes, esportes e comunicação, apoio à juventude, qualidade em saúde e voluntariado. O investimento, só naquele ano, foi de 19 milhões de reais - provenientes dos royalties religiosamente cobrados pelo instituto.

                                                    



Autor: Celso Mathias/Agpress
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