dinheiro compra tudo?

terça-feira, 19 de julho de 2011

O dinheiro não traz felicidade. Mas a sensação é tão parecida que me custa distingui-las... Acoplados a esta gente feliz sem lágrimas estão os simplesmente milionários. Hoje, e ao contrário do que acontecia no século passado, para se ser considerado milionário não basta ter um milhão de dólares. Em 2011, e porque a vida está cada vez mais cara para todos, só é milionário quem possui pelo menos 25 milhões de dólares.Um milhão qualquer malandro amealha.

dinheiro compra tudo?

 

São estes que, por ainda fazerem parte da classe laboral, se encontram tão ocupados que nem sequer têm tempo de organizar os tempos livres. Felizmente, há cada vez mais ajuda. Allison Braley, porta-voz de uma empresa chamada Concierge e que se esforça por dar corpo aos sonhos de quem tem muito dinheiro na conta, explica com simplicidade: «Se alguém nos telefona a dizer que quer ir passar férias em Moçambique, somos nós que organizamos tudo. É nosso dever dar ao cliente a certeza de que vai ter acesso aos melhores hotéis, aos melhores restaurantes e aos melhores guias de safári para observação da melhor vida selvagem», diz ela, com voz de quem vive em permanente «Missão: Impossível», a organizar expedições nebulosas para destinos sem oxigênio do outro lado do Cosmos.

 

A Millionaire’s Concierge, outra empresa que inclui na ementa serviços que custam entre 30 mil dólares (22 mil euros) e um milhão, organiza tudo, desde festas na mansão «Playboy» ao arrendamento da «GoldenEye», a vila jamaicana onde Ian Fleming inventou o James Bond. A quem preferir um roteiro menos «rasta» e com mais adrenalina, a companhia pode disponibilizar um jacto de guerra. O rico vai poder, finalmente, dar uma volta ao quarteirão em 45 minutos - abrange os céus do arquipélago Turks and Caicos. Custam 26 mil dólares e não inclui o preço da gasolina. Doug Turner, o dono da Millionaire’s Concierge, tem de satisfazer desejos simples. «Houve um tipo que me pediu que eu sobrevoasse a piscina dele a bordo de um helicóptero de maneira a deixar cair na água dúzias e dúzias de rosas.»

Há muitos ricos que são discretos. E há gente famosa que continua falida. Mas, de vez em quando, dinheiro e fama reúnem-se numa pessoa só. O Sul da Califórnia, em especial a zona metropolitana de Los Angeles, apresenta várias espécies dentro desta fauna. «Em Hollywood, o dinheiro foi feito recentemente. É uma civilização mais empreendedora. Tem mais cuidado com aquilo que ganha», diz Steve Sims com a voz subitamente silenciosa, parecida com a de quem se especializou em observar colônias de formigas. Ele é dono-fundador da Nomad Society, uma companhia muitíssimo seletiva que segue à risca as regras ambientais quando tenta dar corpo aos sonhos sonhados pelos mais endinheirados. Imaginem, pois, que existe uma cidade onde a temperatura é sempre agradável, uma cidade à beira de um oceano pacífico e onde o sol poente fica mesmo bem a decorar as curvas do Sunset Boulevard. A cidade foi erguida com a força da criatividade artística e, nos últimos anos, quer ser a capital mundial do entretenimento. Imaginem que se trata de um sítio em que, por exemplo, o ator é um dos reis da cidade. Agora imagine se, um dia, o rei está quase a ser coroado depois de muitos anos a subir a direito em filmes como LA Confidencial, The Insider, Gladiador e A Beautiful Mind. De repente, porque se diz por aí que ele é o novo grande talento infalível, o homem decide que, na noite da coroação pela academia, vai mesmo precisar de duas reservas nos hotéis mais exclusivos da cidade. Quem é que consegue tirar tão de repente da cartola duas coisas impossíveis de obter como o melhor quarto do Mondrian Hotel e o «loft» mais caro do Chateau Marmont, em plena época dos Óscares, quando a cidade está outra vez em festa e superlotada? Seria mais fácil encontrar uma praia em Marte mas no estúdio que lhe pagou o salário - digamos, a Disney - toda a gente sabe a solução para tanta angústia: telefonar a uma dessas empresas que satisfazem as vontades de quem pode, quer e manda. Se o rico famoso quer certa coisa, é bom que haja por aí alguém que lhe sirva o desejo numa bandeja de prata. Imediatamente.

«Lido com realizadores, gestores e algumas pessoas famosas e não é raro pedirem-me que contrate um cantor famoso se, lá em casa, houver alguém a festejar um aniversário», diz Steve Sims, explicando de uma vez por todas como é que, há dias, Prince foi contratado para dar um concerto privado numa residência judaica que festejava a emancipação etária de um dos meninos. Nestas cimeiras sociais o dinheiro pode não comprar tudo. Mas quem é que quer usar aquilo que o dinheiro não pode comprar? «A crise tem afetado toda a gente. Absolutamente. Seja dinheiro novo ou velho, é uma classe que tem muito dinheiro colocado em ações e todo o tipo de fundos de investimento. Alguns dos meus clientes estão à frente dos maiores bancos suíços e americanos e claro que foram afetados, mas, agora, em vez de pedirem a «suíte» presidencial no hotel mais caro ficam-se por um quarto de luxo num hotel mais conhecido pelo design e tratamento pessoalizado. Continuam a voar de Palm Beach, onde há muito dinheiro tradicional, para as festas nos Hamptons. Estão cientes de que há uma crise e sabem que todos à sua volta, nas festas, andam a passar pelo mesmo. Mas continuam a viajar de avião privado porque é muito importante mostrar a cara, como antes.» Crise ou não, para quem tem tenacidade nenhuma estrada é intransponível.

Felizmente para ela, esta monarquia financeira encontra-se regida pelas leis do mercado. Se o mercado sente necessidade, haja alguém no mercado que venda o bem desejado, por preço justo. Uma cliente telefona de longe e pede que lhe arranjem um pacote de férias no Texas em que ela se pode apresentar, num baile casual, aos barões do petróleo. Ao telefone da Bluefish, uma companhia que começou por servir os ricos da Florida antes de estender os tentáculos à riqueza exibicionista de Los Angeles, chegam os pedidos mais grandiosos. Um médico endocrinologista, cansado de só conviver em conferências e congressos com os calmeirões da mesma classe, pede que lhe organizem uma viagem a Miami de maneira a poder ter acesso a outros círculos igualmente abastados. O preço da viagem veio com um suplemento de mil dólares, que garantiram ao dito médico entrada numa festa da indústria discográfica e na qual compareceram o «mogul» P. Diddy e o jogador de basquete Shaquille O’Neill. Por 65 mil dólares é possível ter acesso aos recifes australianos e a festas diárias onde comparecem realizadores, atores e estilistas, os melhores do país numa maratona de gala e boa conversa que, de fato, transformam qualquer par de semanas num prazer contínuo. Casais que querem ir ver ao perto o pescoço vertiginoso das girafas e o Quilimanjaro, de repente exigem que a expedição ganhe um valor antropológico, mais profundo e menos leviano: será que a agência pode incluir os nomes dos americanos ricos na agenda social da alta-sociedade de Nairóbi? É para já, até porque nenhuma viagem de prazer fica completa sem a troca de «business cards».

Iates. Fórmula 1. Campos de golfe privados. Picos gelados sem acesso automóvel, onde uma descida de esqui desbrava neve que nunca foi tocada antes. Lagos do Alasca. Festas dos Óscares. Submarinos nucleares. Acesso aos bastidores do concerto dos Rolling Stones. Aventuras. Pôquer em Macau na companhia de emires e sheiks. Competições de vela, lugares junto à rede no Open de Nova Iorque. Seja o que for, é possível comprar. «O pedido mais normal que me fazem é para cruzeiros exclusivos», assegura Sims refletindo que, em era de degelo, o objeto de luxo mais abençoado continua a ser o domínio dos mares, de paquete ou veleiro, na Polinésia ou nos fiordes chilenos, para além do Seno Almirantazgo e com vista para as focas elefantinas que navegam as correntes do estreito de Magalhães. A solidão mais extrema na paz mais remota, fácil, ao alcance de quem tem tempo e dinheiro. «Cruzeiros e ilhas privadas. Os castelos da Escócia continuam populares. Mas a cena mudou muito. Não foi assim há tanto tempo que era possível passar uma semana fantástica em Monte Carlo por 20 mil dólares (14.500 euros). Hoje custa 40 mil. Está tudo mais caro», acrescentou Steve Sims enquanto conduzia o automóvel pelos desfiladeiros da Mulholland Drive. Os pacotes de luxo não estão ao alcance de toda a gente, mas, havendo dinheiro na conta bancária, o cliente consegue mesmo ser rei em cidade alheia. Um pacote de férias vendido há pouco incluía jacto privado até Buenos Aires seguido de noitadas boemias na companhia de atletas, beldades e ícones argentinos variados que vinham da política, do tango, da música, do jogo do pólo, e da moda local apinhada de supermodelos impossivelmente magníficos. Em suma, uma festa em estilo 007. Bastou um telefonema. E 6,4 milhões de dólares.


Autor: Adolfo de Castro
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Existe 3 comentários para esta publicação
sexta-feira, 29/7/2011 por Maracida
DINHEIRO...
Ótima reportagem! o dinheiro é necessário, desde que não nos tornemos escravos do mesmo. A felicidade e sábia... Não precisamos de luxo para viver...
quinta-feira, 21/7/2011 por neuza ananias
DINHEIRO É ILUSÃO
Dizem que dinheiro compra tudo.Não é verdade.Pode comprar-se alimentos mas não o apetite,medicina mas não a saùde,uma cama confortavel mas não os sonhos,conhecimento mas não a inteligência,aparências mas não o bem~estar,diversão mas não o prazer.
quarta-feira, 20/7/2011 por Elizabeth Wonderlyne
Um abismo entre ricos e pobres.
Artigo muito bem escrito. Gostei. É um mundo tão diferente do meu, por isso não entendo certos comportamentos. Os ricos me parecem muito volúveis.
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