pérolas em papel

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

De Maastricht a São paulo, de Buenos Aires a Paris, conheça seis das melhores livrarias do mundo. A viagem começa na Lello, no Porto.O nº 144 da Rua das Carmelitas, no Porto, é uma visita obrigatória para os aficionados da literatura e todos aqueles que chegam à cidade. Quem aqui chega, vem atraído por imagens e relatos de um mundo mágico, onde Arte e História se cruzam com os livros. Dela disse o escritor espanhol Enrique Vila-Matas ser «a mais bela livraria do mundo».

pérolas em papel



Para percebê-lo não basta admirar a bela fachada neogótica, com o seu amplo arco abatido e uma porta central, ladeada por duas montras. É preciso aceitar o convite para mergulhar no seu interior e folhear a sua história.

A primeira coisa que se estranha ao entrar é o intenso cheiro a madeira. Habituados aos supermercados da leitura da atualidade, com as suas estantes pré-fabricadas e o conforto do ar condicionado, somos surpreendidos pela singularidade desta preciosa jóia arquitetônica inaugurada a 13 de Janeiro de 1906, com a presença de várias personalidades da sociedade do Porto e do mundo das Letras, como Guerra Junqueiro, o autor português que vivia em guerra com o clero.

Aqui, tudo é memória de um tempo onde o culto dos livros não era um lugar estranho. Há bancos em madeira revestidos a couro, enormes estantes forradas com muitas preciosidades literárias em várias línguas e até bustos de alguns dos maiores vultos da literatura portuguesa, como Eça, Camilo ou Antero de Quental. O maior postal ilustrado do espaço é, contudo, a sua bela escadaria circular em madeira, envolta pela luz diáfana que irradia do amplo vitral desenhado no teto e captada pelas objetivas de visitantes de todo o mundo. Verdadeiro «ex-líbris» da cidade do Porto, a livraria mantém-se na mesma família desde que foi inaugurada há mais de um século. Em 1995 foi alvo de obras de restauração entregues ao arquiteto Vasco Morais Soares, que preservou o seu caráter histórico, mantendo a traça original, mas adaptou o espaço interior às necessidades de uma livraria moderna. O resultado merece uma visita demorada.


Há quem defenda ser a leitura uma experiência religiosa. Se assim for, não haverá tesouro maior que o revelado, no final de 2006, em Maastricht, no Sul da Holanda. A Selexyz Dominicanen é muito mais que uma livraria. É um pedacinho de céu construído no interior de uma antiga igreja dominicana adaptada ao novo papel pela dupla de arquiteto holandeses Merkx + Girod.

Construída há cerca de 800 anos, a igreja perdeu a sua função original quando, em 1794, os franceses ocuparam a região e expulsaram os dominicanos. Depois, albergou o arquivo municipal, recebeu exposições, foi cenário de combates de boxe e, antes da requalificação, servia de parque de estacionamento para bicicletas.

O projeto é uma combinação perfeita entre sagrado e profano, literatura e fé. A restauração preservou o aspecto histórico e arquitetônico original e dotou-o de um design moderno e minimalista. O resultado é, segundo o conceituado diário britânico «The Guardian», «a livraria mais bonita do mundo».

Subindo ao segundo piso da estrutura metálica que possibilita o acesso a mais de 40 mil livros, os visitantes podem também admirar mais de perto os bonitos e recuperados afrescos do teto do templo. Entre eles, o mais antigo dos Países Baixos, uma imagem de São Tomás de Aquino, datada de 1337 e descoberta durante as obras de restauração.

No antigo altar, agora convertido em bar, celebram-se hoje outros rituais, como apreciar uma chávena de chá ou de uma das inúmeras variedades de café disponíveis. Há ainda uma fascinante mesa de leitura simbolicamente concebida em forma de cruz, para quem quiser folhear um jornal ou uma revista. Divina, como quase tudo neste lugar.

 

Num mundo dominado por «megastores», a Livraria da Vila, em São Paulo, é uma das poucas que conserva o aconchego e a diversidade. O projeto arquitetônico das lojas mais recentes, com portas que se transformam em estantes, foi premiado em Londres, este ano, com o Yellow Pencil. O ambiente moderno, onde não pode faltar um café e um auditório para debates, tornou-se padrão do estilo brasileiro de vender livros, CD e DVD. Mais antiga do que a Livraria da Vila, a Livraria Cultura sempre fez parte da vida intelectual da cidade. Era pequena, no início, mas com a Internet e a chegada do modelo FNAC ao Brasil, cresceu para sobreviver e abriu filiais noutros estados.

 

Na elegante Avenida Santa Fé, a poucos metros da Callao, uma das esquinas com mais movimento, a principal das sete filiais da Ateneo é como um instante de calma e reflexão no frenesi de Buenos Aires. O «glamour» e o esplendor da Ateneo Grand Splendid fazem desta livraria a maior e mais bonita da América do Sul. Numa recente lista elaborada pelo jornal britânico «The Guardian», ocupa o segundo lugar entre as dez livrarias mais importantes do mundo em beleza arquitetônico. Atrás apenas da Selexyz Dominicanen (Holanda) e à frente da Lello. «Temos o catálogo mais importante da América do Sul, com edições especialmente trazidas para esta livraria. O mesmo ocorre com a música clássica», descreve Manuel Cuestas, gerente regional. A Ateneo foi um emblemático cine-teatro, Grand Splendid. Em 1919, o austríaco Max Glücksmann queria construir aqui «uma catedral das artes cênicas». Glücksmann era proprietário da discográfica Nacional-Odeón, selo que lançou Carlos Gardel, entre outros. Hoje, este mesmo palco onde o mito do tango se apresentou várias vezes, foi transformado num charmoso café com piano (Café Impresso), no qual o leitor pode folhear as centenas de livros em exibição. No ano 2000, quando a concorrência com as grandes redes de cinema castigava duramente o Grand Splendid, o grupo ILHSA (proprietário ainda da rede de livrarias Yenny, com 34 filiais) alugou o espaço e investiu 700 mil euros na remodelação do prédio, que manteve intacta a ornamentação, os camarotes, as molduras decorativas, as esculturas e até a cortina de veludo do palco. Desde então, são investidos mais 140 mil euros por ano na preservação do prédio. As poltronas foram substituídas por estantes. A antiga bilheteira é ocupada pelos livros de bolso. Os camarotes são pequenas salas de leitura. Nos três pisos superiores há um hall para apresentações outro para exposições. No total, são 2.000 m2 de harmonia e bom gosto. Em 1927, Glücksmann comprou o prédio da famosa Rua Florida 340, onde, por coincidência do destino, também funciona há mais de 50 anos a primeira filial da Ateneo, cujo padrinho é Jorge Luis Borges.



Foi, durante anos, um dos segredos mais bem guardados de Londres. A livraria Daunt Books, na rua principal do bairro de Marylebone, é uma das mais bonitas da cidade, com os seus cadeirões, o vidro pintado e as lindíssimas prateleiras de carvalho iluminadas por uma longa clarabóia central. O edifício, de 1910, foi construído de propósito para albergar um alfarrabista. Na década de 90, o banqueiro James Daunt transformou-o na melhor livraria de viagens da cidade - uma livraria diferente, com uma alma muito especial. A Daunt Books tem uma disposição única, com os tradicionais mapas e guias de viagem de cada país arrumados ao lado das obras mais importantes de literatura, história, arte ou gastronomia desse mesmo país. «As livrarias tradicionais não têm lógica», explica James Daunt. «Um viajante interessado na França do pós-guerra tem de ir à secção de Viagens, depois à de Biografia procurar um livro sobre De Gaulle e talvez à de História. Aqui todos esses livros estão na mesma prateleira», diz. Numa época em que as grandes capitais européias foram invadidas pela Amazon e por livreiros multinacionais que constroem enormes supermercados de livros, com cinco ou seis andares, a Daunt Books continua a ser uma das poucas - e boas - livrarias independentes a sobreviver em Londres.


«Havemos de voltar a ver-nos!», exclamou, entusiasmado, o indiano, professor de literatura inglesa no seu país, quando se despedia de Sylvia, a gerente da Shakespeare & Co desde que o pai, o norte-americano George Whitman, lhe cedeu o lugar, aos 90 anos, em 2003. Saiu, olhou em frente, para o rio Sena e, à esquerda, para a Catedral de Notre-Dame e comprovou que estava de fato na zona sul do Quartier Latin, em Paris.

Tinha passado quatro horas - «inesquecíveis», disse - num local mítico da cultura anglo-americana, ponto de encontro de todos os «beatnicks» e surrealistas que passam pela capital francesa, outrora descrito por Henry Miller como sendo «o país encantado dos livros».

Bebera chá no primeiro andar com pessoas de todas as idades e de diversas nacionalidades - «todas cultas e livres!», explicou - depois de ter subido a escadaria estreita que arranca, íngreme, do rés-do-chão, onde há livros por todo o lado. Mesmo por todo o lado - até debaixo das mesas, das cadeiras e da escada! «Lá em cima há também de tudo: livros e até camas!», informou. Há de fato camas, onde alguns viajantes podem dormir num ambiente incomparável. As paredes estão repletas de fotos de escritores, de dedicatórias, de notas e de comentários de anônimos de todo o mundo.

O indiano ficou maravilhado com a alegre e suave anarquia da livraria onde os franceses têm de esforçar-se para falar inglês. «Não falamos francês aqui», dizia sempre Whitman, em inglês, aos clientes. Hoje, o «velho», que foi amigo de Hemingway, continua a habitar o lugar, e a regra mantém-se.

Foi igualmente George, contemporâneo de Kerouac e Ginsberg, que impôs o espírito Beat na casa. O indiano disse que, no primeiro andar, lhe perguntaram muito sobre a vida do seu compatriota Rabrindanath Tagore e ouviu um canadiano a ler uns versos de Ginsberg e a dizer que continuava «na estrada». A Shakespeare & Co mantém a mesma linha antipoder desde 1919, quando foi fundada por Sylvia Beach e foi frequentada, por exemplo, por James Joyce, entre outros. Beach enfrentou os nazis e fechou a livraria durante a ocupação de Paris. Renasceu alguns anos depois com Whitman e com a liberdade. «Aquilo» não é bem uma livraria... é um lugar único, uma instituição livre como os autores que promove.

 

 


Autor: Byagn/Agpress
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