Dai à história o que é da história e à memória o que ela escolher

sexta-feira, 16 de março de 2018

Por que se importar com o cotidiano de gente comum que vive a cidade? Uma cidade. Qualquer cidade. O que fazer dessas memórias de um dia a dia que não é história? Fragmentos da vida de gente simples, humilde, que ocupa calçadas com cadeiras e conversa enquanto a Avenida Paulista dá passagem às massas? Que importa?Muito talvez.

Dai à história o que é da história e à memória o que ela escolher


Porque cidades são únicas, por mais que se assemelhem. Únicas, em toda extensão desse termo. Porque é no que se diferenciam que reside muito justamente o ethos que elas, ― cada qual a seu modo ―, conferem a seus cidadãos citadinos. Por isso, falar de cidades é falar de suas idiossincrasias. Assim o nevoeiro místico de Paranapiacaba ou o doce balanço das bandeirinhas em festa nas ruas de Mogi das Cruzes, para sempre louvadas pelo pincel de Volpi.

Nossas cidades nos identificam talvez mais ainda que as nações. Todavia, essa maior ou menor importância conferida às cidades tem parte com a história às vezes; outras, com a memória. Algumas a história, a grande história, perpetuou. Outras têm de seu apenas a memória e o culto citadino e cotidiano das vidas nelas vividas por sua gente. Por isso talvez se possa bem dizer que cidades vivem entre a memória e a história, e que saber um pouco sobre isso pode ter lá a sua importância.

E tem. 

Especialmente nesse tempo em que vivemos, nesse quando presente para nós, pacatos cidadãos, para quem a grande história não mais importa tanto quanto outrora, naqueles tempos em que não éramos nem poderíamos ser dela os protagonistas. É que o homem comum tem vencido essa luta e, por memoráveis caminhos, vem adquirindo lá o seu protagonismo, que só faz aumentar. Verdade que isso se deve bem mais ao fato de ele movimentar o mercado do que ao reconhecimento de sua cidadania e dignidade como pessoa humana no mundo. Todavia, aqui importa dizer que o comum dos homens tornou-se protagonista da história há pouco mais de um século para cá. Desde então o grande vem cedendo lugar ao pequeno, e isso se fez marcar por um retorno quase que obsessivo à memória.

Lembrar importa cada vez mais.

Mas como dar à história o que é da história e à memória o que é dela ou, na verdade, tão nosso afinal? Porque frequentemente se vê uma disputa entre memória e história, em que pese sejam ambas muito diferentes. Há uma forma clara de se perceber essa diferença. A história é de ordem cognitiva e tem o tempo como sua matéria prima. É inteligível na medida em que podemos compreender a passagem do tempo na inexorável separação entre o ontem e o hoje. Ela, história, consiste em um saber ou, no mínimo, tem pretensões a tanto, ao buscar uma universalidade propícia a generalizações, em que pese o fato de eventos passados não poderem ser replicados. Comprometida com a verdade, se esta última se torna inapreensível ou quase metafísica, ela, história, não se contenta com menos do que a verossimilhança. Já a memória é de ordem ideológica, portanto, é franca e assumidamente seletiva. Sua matéria prima é a emoção, e podemos compreender a memória à medida que seus apelos encontram resposta na reciprocidade do outro em nós, na alteridade, portanto. Escolhe-se o que se quer lembrar e o que se deseja esquecer.  Na ordem do cotidiano de gente comum, a memória se perde, caso não seja registrada de algum modo. Basta ver quantas histórias contadas em cartas, quantos fatos gravados em agendas, quantos segredos confidenciados a diários, fora rascunhos, anotações, cartões, lembranças, convites, listas de compras. E isso apenas no âmbito privado da memória, das pertinências que tem com o íntimo de cada um. Haveria ainda o dia a dia sociabilizado nas práticas festivas, nas pequenas publicações, na imensa pluralidade de construções que a imprensa permite, nas notícias perdidas em um rodapé de página, nos convites para enterro, nas participações de noivados, núpcias e nascimentos. Tantas coisas que aparecem no mundo, muitas insuspeitas da importância que a corrida arquivística, todavia, só faz revelar. Tudo porque esse tipo de documento tem merecido atribuição crescente de valor, especialmente nas últimas décadas.

Mas como relacionar história e memória?

Tudo depende muito do que se busca encontrar. Quando a história se vale da memória, quando interroga um documento, um suporte memorável, tem por dever, em uma primeira abordagem, identificar o objeto, sua origem, seu tempo e as circunstâncias todas que cercaram o seu aparecimento no mundo. Portanto, diante de memórias, desde o seu suporte material até o seu conteúdo ideológico, tudo isso merece um exame cuidadoso da parte do historiador, que deve fazê-lo muito antes de tratar da história propriamente dita.  Muitos poderão argumentar que também a memória se posiciona dessa forma, mas a resposta é que não, nem sempre. Sobre o operador de memórias essa regra não pesa de forma tão decisiva. Basta ver que é possível registrar memória de fatos míticos, e ainda de fatos nunca provados em termos históricos. Há museus de seres imaginários e mesmo de extraterrestres. Podem-se coletar lembranças de uma comunidade perpassada de mitos e lendas, onde sacis e boitatás ganham existência real. Tudo o que representa o ideário humano pode ser apropriado livremente pela memória. Não se trata, para o operador da memória, do valor informativo daquele registro, mas de seu potencial de representatividade imediato, compartilhável entre presentes, algo que também informa, naturalmente, mas em outra esfera do saber. Memória não é passado, mas um presente vivenciado na esfera das sensibilidades, dos sentires, das emoções. A memória prescinde de qualquer neutralidade.

Assim é que, quando se deseja operar na ordem das memórias, quase nunca se busca o valor informativo real e generalizável, a qualidade altamente verossímil de um dado documento, tanto do ponto de vista de sua materialidade quando do ponto de vista de seu conteúdo ideológico, sempre coerente, sempre relacionável ao tempo a que pertence quanto às circunstâncias que cercaram o seu aparecimento no mundo. Esse mister pertence ao historiador, que dele não se pode, aliás, não deve, se afastar. À memória, não é o dado universal que interessa, e, não raramente,  o dado altamente verossímil que se extrai de um documento. O que orienta e determina a construção da memória não é necessariamente a verdade, pois a memória conforta bem a possibilidade de um uso político, por exemplo. Porque, a ação de monumentalizar memórias, — memórias compostas, aliás, predominantemente, de fragmentos, como podem ser aquelas pertinentes ao homem comum —, é uma ação que congela versões quase sempre totalizantes e totalizadoras. Escolhe-se aquilo que conforta a versão que se pretende praticar. É o velho uso político do passado que descobre, muito facilmente, nos fragmentos cotidianos, um material cuja maleabilidade é flagrante.

Todavia, o que se encontra de mais fascinante e valioso no microuniverso da cotidianidade vivida por gente comum é que o registro dessas vivências, seus suportes materiais tão variáveis e tão surpreendentes às vezes, é aquilo que eles significam do ponto de vista das sensibilidades e das sociabilidades. O historiador, por sua vez, pode neles encontrar sinais altamente denunciadores do efeito que os grandes acontecimentos imprimem ou não às pessoas comuns. A comprovação indireta do grau de repercussão de um fato histórico em dado tempo e lugar. Um poder que pode ser usado em dupla via. Porque, não raramente, esses pequenos fragmentos do comum podem, como reagentes, desmentir grandes verdades, impactando momentaneamente um acontecimento. Para tanto, seriam como que poções mágicas que fariam desaparecer, com um simples abracadabra, o atributo de grandeza do herói ou a vilania do criminoso.  A memória tem esse poder ainda que nem sempre perdurável. Vê-se isso constantemente. A força dos potins, que já foi a ruína de muitas reputações, força esta consagrada pelas velhas mexeriqueiras de antigamente, hoje se propaga em tempo real, revigorada pelas redes sociais. E se volta, quase que naturalmente, contra tudo aquilo que adquire notoriedade. Não é corriqueiro que baste alguém desfrutar de cinco minutos de celebridade para sofrer, quase que instantaneamente, o bombardeio das mídias? Aprofunda-se a memória no diz-que-diz, e a informação se fabrica sob medida, assim como as memórias se ajustam e reajustam, ― retocadas ―, ao compasso das disputas ideológicas que por aí tem lugar.

Uma sugestão para quem pretendesse visitar a cotidianidade citadina? Seria preciso relativizar o dado axiológico inerente a documentos pertinentes à esfera privada, íntima ou institucional. Porque se tratam quase sempre de valores que não residem apenas no que são esses documentos por si mesmos, isoladamente, mas da qualidade das informações que muitos deles oferecem, quando contextualizados, capazes, inclusive, de servir de indicadores face aos grandes acontecimentos a cuja sombra vive o comum dos homens. Não se deve crer no grande quando nele não se encontra o reflexo do pequeno. Essa máxima alquímica, que deve ser entendida em dupla via, indica que nada é tão simples. A carta do soldado escrita à namorada em tempos de guerra representa esta última muito mais intensamente do que o livro do historiador. O grandioso, como o absoluto, é opaco. No pequeno, porém, essa opacidade é varrida pela transparência e pela espontaneidade dos fragmentos que o comum dos homens deixa atrás de si, graças à memória esboçada pela poesia das conversas de calçadas, pelos sabores, cores e cheiros que traduzem tão fielmente o universo sensível de tudo o que a razão é incapaz de apreender.

Diante desse cenário, na consciência do pacato cidadão que habita a cidade e que por ela se movimenta por dias e dias, pouca diferença faz a relação entre emprego e renda, assim como em que mãos se concentram os meios de produção. A ele, certamente, na dimensão de sua humanidade, importam mais as ruas pelas quais deve passar, as lendas urbanas das quais ouviu falar, os hábitos que se fixam pelo ir e vir, as cores e os cheiros que sente, os lugares aonde vai trabalhar, divertir-se, rezar ou chorar.

Berçário e asilo dos homens, as cidades podem ter sua história, tão certa quanto neutra na exata medida fornecida pelos números, mas é por suas memórias que vai se diferenciar de tantas e tantas outras que também a ela se assemelham na ordem das quantificações. O homem providencial e seu destino histórico agonizam sob o descrédito de uma Providência desmentida pelas estatísticas. Mas, em que pese anônimo, cada pequeno homem pode vir a ser um pequeno príncipe, capaz de assimilar e de conferir sentidos a cada uma das rosas que desabrocham nos jardins e praças de sua cidade.

 


Autor: Maristela Bleggi Tomasini
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Existe 2 comentários para esta publicação
segunda-feira, 19/3/2018 por Isabelle Dann
Incrível!
A crônica e as imagens estão incríveis! Muito legal o "paralelo" sobre a cidade e as memórias, concordo que as nossas cidades nos identificam talvez mais que as nossas nações.Parabéns! <3
domingo, 18/3/2018 por Rogério Centofanti
Brilhante
Mais um texto brilhante da recém doutora em Hstoria Social pela USP, Maristela Bleggi Tomasini
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