Riva; charme e glamour

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Mais do que simples embarcações, confortáveis e bem acabadas, os Riva tornaram-se um símbolo do design e da elegância italiana, baseado no que na época havia de melhor em materiais de construção naval: madeiras de mogno da Costa do Marfim, Gabão e Honduras, motores norte-americanos da Chris-Craft, manômetros de longa durabilidade e vernizes das melhores misturas, é claro! Se lhe perguntarem quais são os melhores do mundo, a resposta só pode ser Riva.

Riva; charme e glamour

O

barco das celebridades de todos os tempos. Ter um Riva era um sinal inequívoco de distinção e bom gosto, não espantando, por isso, que o príncipe Rainier de Mônaco se orgulhasse do seu “Les Rochers”, Brigitte Bardot do “Drácula”, Marcello Mastroianni e Shopia Loren do “pomentino”, Porfírio Rubirosa do “L’Abromzato” e a família real da Arábia Saudita do “Crude”.

Mais do que simples embarcações, confortáveis e bem acabadas, os Riva tornaram-se um símbolo do design e da elegância italiana, baseado no que na época havia de melhor em materiais de construção naval: madeiras de mogno da Costa do Marfim, Gabão e Honduras, motores norte-americanos da Chris-Craft, manômetros de longa durabilidade e vernizes das melhores misturas, é claro! Se lhe perguntarem quais são os melhores do mundo, a resposta só pode ser Riva, o barco das celebridades de todos os tempos.
Os anos sessenta marcaram o período áureo dos Riva. De Monte Carlo a Portofino, passando por Saint Tropez e outras estâncias da Riviera ou Côte d’Azur, a elegância passeava nos mais variados modelos. Ter um Riva era um sinal inequívoco de distinção e bom gosto, não espantando, por isso, que o príncipe Rainier de Mônaco se orgulhasse do seu “Les Rochers”, Brigitte Bardot do “Drácula”, Marcello Mastroianni e Shopia Loren do “pomentino”, Porfírio Rubirosa do “L’Abromzato” e a família real da Arábia Saudita do “Crude”.

A esta lista dos mais famosos proprietários Riva podemos ainda a acrescentar Dino de Laurentis, Lamborghini, Jean-Paul Belmondo, Liz Taylor, Kirk Douglas (na foto com a jovem Brigitte), Richard Burton, Sean Connery, Peter Sellers, o xá da Pérsia, o rei Hussen da Jordânia e, mais recentemente, a família Pitangui com um modelo júnior, batizado de “Plástica”.

A fama dos Riva confunde-se com o próprio percurso de Carlo Riva, que, com pouco mais de 14 anos, já seguia atentamente o trabalho de seu pai Serafino, na Cantieri Riva, o modesto estaleiro da família. Aí, começou desenhando modelos de pequenos barcos de corrida, sendo o “Brun-Ella” o mais bem-sucedido em competições oficiais.

Quatro anos mais tarde, num conceito estético e técnico mais ambicioso do que aquele que caracterizava o trabalho do pai, desenhou o seu primeiro modelo de dois motores. Mais do que apresentar um barco moderno, começava a revelar-se uma evidente diferença de gerações entre pai e filho, fato que trouxe para a relação entre os dois uma tensão quase permanente.

Serafino apreciava silenciosamente o trabalho de Carlo, mas sempre se mostrou relutante em aceitar os seus planos. Por seu lado, pleno da juventude, apoiado nos conhecimentos adquiridos no Instituto Técnico Industrial de Cremona, e fascinado pelos barcos da americana Chris Craft, Carlo Riva queria mais. Desejava produzir em escala industrial barcos de excelente qualidade e revolucionar um estaleiro familiar sem grandes objetivos e que vivia apenas de entusiasmo e carolice.

Determinado, Carlos Riva conseguiu um reconhecimento do famoso criador das armas Beretta, que lhe encomendou um barco com pagamento adiantado. Mais do que uma nova embarcação para caça aos patos no lago de Como, Beretta quis perceber se este pequeno investimento funcionaria como semente de um novo negócio. Porém, o interesse de Beretta não demoveu o seu pai, que se manteve irredutível na sua desconfiança. As relações entre os dois entram então no período mais delicado e, numa noite de janeiro de 1950, Carlo acabou por fazer um ultimato: ou o pai o deixava desenvolver a sua estratégia ou nunca mais contaria com ele. Sem escolha, Serafino cedeu e acordou com Carlo um período de três anos, ao fim do qual teria de estar perfeitamente convencido de que o negócio ia de vento em popa. Caso contrário, teria de devolver-lhe tudo e desistir para sempre dos seus planos. A combinação consumou-se e foi mesmo formalizada no notário. Carlo não só cumpriu os termos do acordo, como lançou mão do planejamento e construção de um novo estaleiro numa zona mais a sul do lago Iseo. A nova Cantieri foi inaugurada com pompa e circunstância pelo presidente da Câmara de Sarnico, em outubro de 1954, e ao fim de quatro anos o nome Riva começou a ser conhecido.

Mas, para poder oferecer ao mercado barcos de alta qualidade, Carlos Riva sabia que havia problemas a ultrapassar. Um deles era a confiabilidade dos motores italianos, cujo desempenho em competição não tinha paralelos em barcos de passeio. Como sabia bem que eram os americanos da Chris-Craft que produziam motores dessa qualidade, rapidamente preparou uma viagem aos EUA, onde tentou obter o exclusivo da marca. Em 1952, na companhia de um tradutor da embaixada italiana, visitou Roy Clark, o diretor de vendas da Chris-Craft na sede da empresa garantindo a exclusividade dos seus motores para a Europa.

Com a melhor motorização, Carlo Riva rapidamente projetou a fama dos seus barcos além das margens do lago que o viu nascer. Primeiro, lançou o Scoliattolo, depois o Corsaro - de dois lugares e muito veloz -, Saebino - antigo nome do lago Iseo -, o Ariston, mais tarde o Tritone, o Florida - homenagem ao Estado americano com tradição no sky náutico - Junior, Olimpic e o famosíssimo Aquarama. Começavam, então, os anos dourados dos Riva.

Na crista da onda, Carlo não perdeu tempo e tudo fez para internacionalizar a sua marca. Às feiras de Milão e ao centro de exposições em Roma, sucedeu-se a abertura, em 1964, de um “show-room” em Nova York, mais propriamente no Rockefeller Center, em plena Quinta Avenida. Diante deste estava o famoso clube “21”, na época passagem obrigatória de centenas de celebridades, que passavam as suas noites no coração de Manhattan. Em poucas semanas, os Riva deram-se a conhecer os mais endinheirados compradores e as encomendas dispararam. Independentemente das suas fortunas, Carlo Riva aproveitou para instituir o princípio de que todos os clientes merecem igual atenção, que nenhum barco seria entregue sem o seu pronto pagamento. Como o próprio recorda, “muitas vezes não era fácil dizer a um rei que não poderia tocar no seu barco até o pagamento estar concluído!”

Na fábrica, a partir do seu escritório panorâmico, Carlo Riva acompanhava ao pormenor todos os passos da linha de montagem. A cada trabalhador, nos seus trajes de trabalho, assim como às ferramentas, depósitos de madeira e de ferragens atribuiu uma cor, o que lhe permitia perceber se alguma “peça” deste “puzzle” estava fora do lugar e se havia algum problema.

O mesmo rigor era aplicado aos fornecedores de componentes. Entre as várias histórias que Carlo Riva ainda hoje confirma, conta-se a do seu cliente Fritzz Lizenhof, o presidente da germânica VDO que produzia instrumentos de navegação para automóveis e aviões. Lizenhof, que comprava Rivas como quem muda de camisa, propôs que fosse a sua fábrica a fornecer os manômetros para os Riva. Carlo Riva torceu o nariz, explicou-lhe que o mar e água salgada eram terríveis adversários e que não o queria perder como cliente. O presidente da VDO insistiu e nos meses seguintes os seus engenheiros fizeram inúmeros testes, mas os instrumentos mostravam-se frágeis. Então, ficou célebre o dia em que Carlo Riva pegou um martelo e, qual controle de qualidade, diante dos técnicos alemães, desfez os instrumentos da VDO em pedaços! Fritz Lizenhof não desanimou e, ao fim de dois anos, os manômetros da sua marca conseguiram resistir ao martelo Riva. Formalmente, em 1964, foram aprovados os protótipos que viriam a equipar os barcos de Sarnico. Na época, Carlo Riva justificava-se: “sejam reis ou industriais, todos os meus clientes são importantes e os meus barcos tem de ser perfeitos. Tudo quanto não seja a perfeição arruinará o meu nome”. Para sublinhar o seu cuidado, comprometia-se a compensar os futuros proprietários em cem dólares por cada dia de atraso na entrega, multa que nunca teve de pagar.

Dobrada a década de sessenta, começou a ganhar forma um dos derradeiros desafios de Carlo Riva: a construção de barcos em fibra. Gerard Kouwenhoven, amigo da família e responsável pelos negócios nos EUA, alertou-o para a autêntica revolução que estava varrendo os construtores norte-americanos. Em poucos anos, os catálogos destas marcas passaram a apresentar exclusivamente modelos em fibra de vidro, alteração que agradava aos novos clientes, pois estes barcos exigiam custos de manutenção mais baixos. Gerard aconselhou Carlo Riva a preparar-se para estes ventos de mudança que, em breve, chegariam à Europa.


A “difícil” decisão foi tomada e os primeiros Riva com peças em fibra ganharam forma em 1969. Esta novidade acabou por gerar polêmica e Guido Prina, o mais bem-sucedido distribuidor de barcos da Itália, referiu-se a Carlo Riva como um “tolo”, afirmando que “a fibra nunca seria bem aceita no país”. Em Genova, na maior feira náutica transalpina, Carlo foi recebido como um traidor do seu próprio negócio. O tempo encarregou-se de mostrar a todos que era o único que estava certo...

A nova forma de construir barcos de recreio, aliada à excitação sindical que desestabilizou a Itália dos anos sessenta, acabou por desgastar Carlo Riva. Paralelamente, iam-se sucedendo as propostas para parcerias ou mesmo de aquisição do Cantieri Riva por parte das marcas internacionais, como a própria Chris-Craft, a Brunswick ou a Whitthaker. Depois de vários meses de namoro, aceitou negociar com a Whitthaker, com quem se comprometeu a manter-se à frente do negócio durante dois anos, para poder acompanhar a total reconversão dos barcos para a fibra. Gerard Kouwenhoven esteve presente nestas negociações, que tiveram lugar num restaurante em Milão, e recorda que “Carlo ainda hesitou. Disse-me, com lágrimas nos olhos, que não conseguiriam vender o negócio da família, aquilo a que se havia dedicado de corpo e alma ao longo da vida”. Porém, às quatro da manhã, o negócio foi fechado. Dois anos mais tarde, em 1971, Carlo Riva optou por afastar-se, sugerindo o nome de Gino Gervasoni para seu sucessor. “Senti que ali nada tinha que ver comigo.”

Longe do seu negócio de sempre, Carlo Riva dedicou-se à construção da primeira marina italiana, situada em Rapallo, bem perto de Portofino, e que foi batizada com o seu nome. Ao mesmo tempo desenvolveu clínicas de restauração especializadas nos barcos que produziu ao longo de décadas. Com o Porto, Carlo Riva pôde cumprir um sonho antigo e com estaleiros de recuperação de “Rivas” manteve-se junto à grande paixão da sua vida. Carlo Riva deixar à família a herança de, através da restauração, perpetuar no tempo os mais de 3.700 barcos que lançou ao mar. Deixa-lhes, também, o orgulho de ostentarem o sobre nome Riva, que ficará para sempre associado aos mais belos barcos do mundo. A todos deixa-nos um inestimável legado de “glamour”, excelência e bom gosto.


Autor: Celso Mathias
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