Sampa como opção; um outro olha sobre a capital de São Paulo!

terça-feira, 9 de setembro de 2014

São Paulo: a melhor opção para quem não gosta de Natal, Ano Novo e Carnaval. As pessoas gostam de generalizar a partir das experiências de suas próprias vidas. Como é difícil contornar os efeitos dos espíritos populares do Natal, Ano Novo e Carnaval. O que dizer, então, os de declarar, no melhor estilo Raul Seixas, que acho tudo isso um saco? Aprendi a não mais dizer, e vou contornando, apenas. Algum ranço intelectual? Não. Não gostava desses acontecimentos nem mesmo quando criança.

Sampa como opção; um outro olha sobre  a capital de São Paulo!

Natal era interessante porque ganhava presente e Ano Novo era boa ocasião para comer bem, o que era significativo em uma infância pobre. Nunca gostei de Carnaval.


Mesmo quando consigo, porém, escapar de convites para as tais confraternizações, acabo invadido pelos meios de comunicação. Jornais, rádios e emissoras de TV entram também no espírito. Aliás, não sei se entram ou se alimentam. 


No Natal toda a programação está orientada para arrependimentos e perdões. No Ano Novo é o porre das retrospectivas e do embalo da esperança. No Carnaval é a avalanche da alegria a qualquer custo.  Parece ser também essa a programação mental das pessoas, ou de boa parte delas.

Na outra ponta dessa experiência, fico me perguntando se de fato elas acreditam nesses sentimentos enlatados. A julgar pelo que observo, parece que a maioria acredita. Data para arrependimento e perdão, data para revisão e esperança, e data para alegria. Tudo isso me parece muito estranho.

O lado bom nessas datas, ao menos para minha conveniência, é que São Paulo entra em dormência. Nessa medida estou de férias, inclusive do formigueiro humano. Não conseguiria tal reclusão nem mesmo na margem de um igarapé perdido na Amazônia.

Na cidade de São Paulo posso encontrar o melhor dos retiros, uma vez que os paulistanos saem em caravanas à busca de sossego ou diversão. Encaram engarrafamentos nas estradas para que possam esquecer os engarrafamentos diários das ruas e avenidas da metrópole. Encaram filas nos comércios das cidades para as quais recorrem em busca de sossego ou diversão, para que possam se esquecer das filas que enfrentam diuturnamente na grande cidade. Gente estranha essa a minha!


As grandes avenidas ficam vazias, e dão a impressão de obras exageradas. As sinalizações que servem para a convivência de carros e pedestres parecem desnecessárias, mas nestas ocasiões tornam-se decorativas, em especial quando vistas do décimo quarto andar de meu apartamento. Os edifícios no entorno parecem todos abandonados, em especial à noite, quando apenas poucas luzes nos interiores indicam presenças. É. A paulistada saiu mesmo!

Ah, como é bom ir ao centro velho, sebos, feirinhas e museus, sem ficar preocupado com os horários de rush do metrô. Cinemas, teatros e restaurantes abertos, e sem a disputa por lugares. Melhor ainda pelo fato dos turistas para compras não aparecerem. Nem os de dinheiro novo que invadem os shoppings, e tampouco os sacoleiros que inundam a 25 de março. Ficam os paulistanos ensimesmados, embora divididos em suas tribos. Os cults para um lado e os sarados para outro, mas sempre “na deles”. Ficam também os trabalhadores nos setores de serviços e os de fora, que não têm condições de folga ou de retorno aos lugares de origem, para as orgias do arrependimento e perdão, da retrospectiva e esperança, e também da alegria por decreto.

Bem verdade que não existe melhor retiro do que dentro de nós mesmos, mas uma mãozinha do ambiente é sempre bem-vinda.

A pequena dimensão do apartamento, alguns livros, boa música, o prazer de cozinhar, de pesquisar e de escrever bastam. Ter, entretanto, a grande metrópole como paisagem, além da liberdade serena de caminhar e de desfrutar o melhor da capital, sem desgastes e contratempos, é mesmo um Paraíso, de onde, talvez, o nome de meu bairro.

Melhor do que isso, apenas ver a Maristela obter excelentes fotos com a objetiva Hasselblad em modo manual, e que ilustram este texto. Tudo isso sem arrependimento ou perdão, sem retrospectiva ou esperança, e sem a necessidade de nenhuma escola de samba para propiciar alegria.






Se você não gosta de “muvuca” e de multidões, São Paulo é um lugar perfeito, mas nesses períodos.



Autor: Rogério Centofanti
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