A festa não é mais de Babete

sábado, 29 de julho de 2017

Em 1825, o filósofo e gourmet francês Jean Anthelme Brillat-Savarin escreveu: “ diga-me o que comes e te direi quem és “. Como a ordem dos fatores nem sempre altera o produto, imagino que uma leitura inversa de tal afirmação ainda forneça um efeito semelhante: “diga-me quem és e te direi o que comes “.Pois é. O mundo desde lá rodou. Conectou-se. Globalizou-se. Tornou-se mais permeável, fluido, ágil, impaciente. Exigente.

A festa não é mais de Babete



A tecnologia - entre outras façanhas - encurtou as distâncias metamorfoseando o algo-estranho em algo-familiar.

As linhas divisórias dissolveram-se, então. Informação e mobilidade são, agora, palavras de ordem: à velocidade de poucos cliques do mouse ou do controle remoto, migramos do Marrocos para a Índia passando pelo Peru via o Ártico com conexão em Portugal. Em “speeds” menores – porém não menos impressionantes – nos deslocamos fisicamente para qualquer ponto do globo em questão de insignificantes horas. A caleidoscópica multiplicidade de escolhas determina a permuta de hábitos antigos em favor de outros novos, impondo mudanças nos vários segmentos da vida pública e privada. Pois é. Run Lola, run !!

E de que forma isso afeta a maneira como nos relacionamos hoje com a comida num contexto, digamos, de âmbito social? De vários jeitos, eu diria. Mas a palavra indubitavelmente mais “hot” do momento - e creio que a mais significativa para defini-lo - é degustação.

Com universos gastronômicos sendo despejados diariamente em nossas retinas, somos expostos aos mais diversos tipos de tentações. Estamos, então, mais curiosos, mais desejosos e ávidos para experimentar. Menos dispostos a aceitar a previsibilidade monocórdica do “muito-de-uma-coisa-só“, optamos pelo êxtase da pluralidade, pela multiculturalidade do “de-tudo-um-pouco“. Comportamo-nos, assim, como crianças de olhos gordos e bem arregalados que correm freneticamente de um lado para o outro em uma loja abarrotada de chocolates. Queremos provar todos. Pelo menos um de cada. Ueba!!

A mobilidade nos encontros de pessoas que envolvem comida tornou-se também um fator marcante e até necessário nesse novo jeito. As relações sociais estão mais desprendidas. A ampliação das redes de contatos, sejam elas de ordem pessoal ou comercial, faz-se obrigatória. O familiar e estabelecido “sit-down-dinner”, ao frustrar a fluidez, cede espaço a um novo tipo de celebração, onde é relegado a um plano secundário o que outrora era considerado indispensável: a presença de mesas e cadeiras. Os tradicionais pratos de comida com limitadas escolhas são substituídos por uma grande gama de pequenas porções móveis e nas mais variadas cores, formas e sabores: finger food, hors d’oeuvres, tapas, canapés, petiscos, cumbuquinhas, comidinhas ... Os convidados encontram-se finalmente livres para trafegar portando seus pequenos bocados de multi-guloseimas de um lado para outro, de um contato ao outro, de um bate-papo a outro, em um ritual de ininterruptos degustares - literais e metafóricos.

Pois é. Vivenciei muito isso nos meus gratificantes anos de New York, ora no ofício de chef, ora na condição de convidado. Ao voltar para Porto Alegre, entretanto, percebi que essa tendência era ainda um pouco tímida em relação à intensidade de um centro hiper-ativo como aquele. Porém, com o passar do tempo, tenho notado uma mudança significativa na maneira de como estamos modificando nossos hábitos e incorporando esse novo jeito de celebrarmos nossas vidas ao redor da comida. Se veio para ficar, não posso afirmar ainda. Mas tudo leva a crer que sim. Pelo menos até o momento do próximo wave de um novo comportamento. Mas de uma coisa eu tenho a absoluta certeza : Babette estranharia muito tudo isso. As leis que um dia regeram sua cozinha estão baseadas em outros parâmetros, que são, de certa forma, incompatíveis com essa nossa contemporaneidade. Sua festa certamente não teria mais o mesmo apelo nesses dias de pós-modernidade. E isso é bom ou ruim? Estamos, afinal de contas, melhores ou piores? It doesn’t matter at all, after all. Existe, sim, apenas uma coisa que realmente importa: Let’s just celebrate ! Send in the food !!

 

Receita: beringela caprese

(Para 20 unidades)

1 bola pequena de mozzarela de búfala, cortada em pedaços pequenos

10 tomatinhos cerejas, cortados ao meio

2 dentes de alho, picados

½ cebola pequena, cortada em fatias finas

1 colher de sopa de orégano fresco picado, ou 1 colher de chá de orégano seco

Micro folhas de manjericão

5 mini beringelas, cortadas em moedas de 1 cm de largura

1 ovo batido

3 colheres de sopa de farinha de trigo

5 colheres de sopa de farinha de rosca

Sal e pimenta do reino a gosto

óleo de oliva

Procedimento

1. Misture os tomatinhos, o orégano, o alho, a cebola. Tempere com sal, pimenta do reino e um pouco de óleo de oliva. Leve ao fogo baixo e asse até desidratar. Reserve.

2. Coloque a farinha de trigo, o ovo batido e a farinha de rosca em 3 recipientes separadamente.

3. Passe cada moeda de beringela na farinha de trigo, no ovo e , por último, na farinha de rosca.

4. Em uma frigideira com um dedo de óleo de oliva, frite as beringela de ambos os lados até dourar. Escorra em um guardanapo de papel e reserve.

5. Ao servir: Disponha um pedaço de mozzarela sobre cada beringela. Sobre elas arranje meio tomatinho seco e leve ao forno pré-aquecido ( 200 graus ) até o queijo derreter. Retire do forno, coloque uma folhinha de manjericão no topo e sirva. Yummy! Bom apetite!




Luciano Lunkes é chef de cuisine>


Autor: Luciano Lunkes
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