O Jeca Tatu e o VLT

domingo, 20 de maio de 2012

O VLT é uma solução rápida, pois ocupa espaços já disponíveis, isto é, muitas ruas e avenidas existentes, sem a necessidade de desapropriações. É o mais econômico dentro da família ferroviária urbana, pois não necessita de grandes obras de construção civil, além de ser também o mais econômico na aquisição dos veículos. É ecológico, pois se utiliza de energia elétrica ou de células de hidrogênio. É harmônico,bonito e silencioso. Tem capacidade para transportar número considerável de usuários.

O Jeca Tatu e o VLT



O VLT chegou até as prosas de compadres acocorados ao redor de uma fogueira em Sertãozinho da Mantiqueira.

- VL o que?

Como sempre, em Sertãozinho as notícias tardam a chegar, e quando finalmente chegam são tratadas com a devida desconfiança.

- Que coisa é essa?

Desta vez foi fácil aquietar a curiosidade dos matutos.

- O senhor já ouviu falar no tal de VLT, seu Rogério?

- Já, respondi. É um bonde.

- Eita! E por que não chamam logo de bonde?

Disse que isso é coisa de gente “metida a besta”, e esse argumento é facilmente assimilado por aqui.

Com esse esclarecimento a prosa tomou o rumo certo, isto é, o motivo de novamente se falar em bondes. Ops! Em VLT.

- “Bão”, sentenciou Roque, meu vizinho.

Meu amigo Paulo Roberto Filomeno publicou matéria interessante no blog São Paulo TREM Jeito sobre as litorinas que nos serviram no passado e, com base no conceito de automotriz, disse que eram VLTs. E eram mesmo. O bonde é um VLT levinho e a litorina um VLT mais pesado, mas não tanto a ponto de ser um trem, que é pesadão, parrudo. Os três, porém, são automotrizes, e transitam sobre trilhos. Como se diz aqui em Sertãozinho da Mantiqueira, e como forma de encerrar discussão, “simples assim”.

Pena que não dê para explicar com a mesma simplicidade para os metropolitanos. Imagine dizer que VLT é um bonde.

- Bonde? Que horror...

Na metrópole se faz necessário falar em tramway, metrô leve, ou em qualquer outro nome que tenha algum apelo de inovação - se possível com permeio de expressões high tech -, além do legitimador argumento de que é utilizado em países europeus.

Também faço uso dessas recorrências, mas sempre com a certeza de que servem aos resquícios de colonialismo dos quais não nos libertamos até hoje. Continuamos movidos por raciocínios e sentimentos típicos de tudo que é “emergente”, isto é, alimentado pela pobreza da imitação e do consumismo como medida de “sucesso” ou de “progresso”.

Precisamos do VLT, tramway, metrô leve, trem leve, bonde ou qualquer outro nome que se queira empregar, mas por motivos que passam longe de nominalismos, modismos ou “tendências”: 1) não podemos permanecer estagnados nos congestionamentos e mergulhados na poluição atmosférica, sonora e visual; 2) não podemos continuar injetando dinheiro público para atender interesses privados dos transportes individual e coletivo; 3) não podemos endividar o Estado pela escolha de modos de transporte coletivo que custem verdadeiras fortunas e, mais urgente, 4) precisamos de soluções rápidas, até mesmo para acabar com a violência no trânsito.

O VLT é uma solução rápida, pois ocupa espaços já disponíveis, isto é, muitas ruas e avenidas existentes, sem a necessidade de desapropriações. É o mais econômico dentro da família ferroviária urbana, pois não necessita de grandes obras de construção civil, além de ser também o mais econômico na aquisição dos veículos. É ecológico, pois se utiliza de energia elétrica ou de células de hidrogênio. É harmônico, pois bonito e silencioso. Tem capacidade considerável para transportar um número significativo de usuários. Não necessita de estações complexas e dispendiosas. Veloz? No ambiente urbano isso seria até desaconselhável, mas é constante, em especial se transitar em vias segregadas. Confortável? Sim, e até mesmo na acessibilidade, pois praticamente circula no nível do solo. Seguro? Sim, pois dotado de tecnologia consagrada. Agradável? Sim, pois tem arranque e frenagem suaves. Anda sobre trilhos? Não necessariamente no plural, mas obrigatoriamente sobre pelo menos um trilho, uma vez que ferroviário. Emprega rodas de aço? Não necessariamente, pois existem modelos sobre pneus.

O que dificulta, então, a sua adoção? Motivos políticos: compete com os ônibus, e em boa medida também com automóveis e motos, pois tomaria parte deles nos espaços públicos ora disponíveis.

Eliminaria os ônibus? Em muitos lugares substituiria os ônibus, mas certamente que não em todos os lugares. Operaria de forma integrada com trens, metrô, monotrilhos e ônibus.

Por que, então, não é nem mesmo discutido? Bem, ai está uma boa pergunta para as autoridades públicas de transporte.

O que posso assegurar é que até os caboclos de Sertãozinho da Mantiqueira compreenderam, e gostaram. Mas, como é gente “simples” e desinteressada, talvez seja mais fácil para eles o entendimento.





Autor: Rogério Centofanti – Consultor do SINFERP
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Existe 2 comentários para esta publicação
terça-feira, 29/5/2012 por Rogério Centofanti
Matutices
Oi Maristela. Grato pelo comentário. E pensar que querem fazer crer que Monteiro Lobato não sabia das coisas, ao falar do jeca lavrador, jeca filósofo, jeca tudo... Abraço
terça-feira, 29/5/2012 por Maristela Bleggi Tomasini
Eu matuto, tu matutas
Esses jecas fazem a gente matutar. Parabéns, Centofanti. Ótimo artigo!
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