Caderno de Viagem

segunda-feira, 24 de junho de 2019

Hoje me veio à memória a lembrança de um tempo que embora não esteja tão distante, em certos momentos me parece tão longe... Um tempo em que a marca dessa cidade ainda era o World Trade Center, que a Rua 42 ainda não tinha sofrido os efeitos da “Tolerância Zero” de Rudolf Giuliani, que o Russian Tea Room (foto) ainda não tinha sido reformado, que o “after theatre” dos atores da Broadway era feito no Rosa’s Place onde, ela mesma, a Rosa recebia a todos com seu sorriso mineiro.

Caderno de Viagem




Sorriso mineiro e um rostinho de menina que escondia sua verdadeira idade e tantos outros segredos. Viajem comigo...

Infelizmente não tenho uma foto da Rosa para ilustrar essa matéria. Tenho do Rosa’s que pode ser o núcleo dessa história.

Nessa época eu morava na Rua 44 entre a 5th e 6th avenida, um endereço nobre. Ali, recém-restaurado pelo grupo japonês Aoki, proprietário dentre outros patrimônios, do grupo Caesar Park e da Rede Westin, reabria suas portas o tradicional Hotel The Algonquin, uma das mais importantes Land Marks da “Big Aplle”. Celebrizado por um grupo de intelectuais ligados à imprensa nova-iorquina. Nomes do peso de Franklin P. Adams (1881–1960): Colunista do New York Tribune, Robert Benchley (1889–1945): Editor da Vanity Fair, Heywood Broun (1888–1939): Editor de Esportes do New York Tribune, Marc Connelly (1890–1980): escritor, Edna Ferber (1887–1968): Novelista, Margalo Gillmore (1897–1986): Atriz, Jane Grant (1892–1972): primeira mulher a assumira a área de reportagem do New York Times, Beatrice B. Kaufman (1894–1945): Colunista Social. George S. Kaufman (1889–1961): Critico de teatro do New York Times e ator, Harpo Marx (1888–1964): Ator, músico e comediante, Dorothy Parker (1893–1967): Crítica da Vanity Fair, Harold Ross (1892–1951): Fundador do The New Yorker, Arthur H. Samuels (1888–1938): Editor do Harper’s Bazaar, Alexander Woollcott (1887–1943): Critico de artes do New York Times, entre outros, fundaram no The Algonquin, a “Round Table”, lugar onde frequentemente se reuniam para porres homéricos e discursões sobre o salvamento da humanidade.

O hotel, que depois da decadência do grupo Aoki, foi novamente fechado, tinha muitas peculiaridades. Comprado na época por cerca de U$ 20 milhões, recebeu um investimento de mais U$ 20 milhões para recuperar sua classe e esplendor. 

No contrato de venda uma clausula reservou metade do sétimo andar para morada da herdeira com sua gata Matilda. A herdeira faleceu, Matilda hoje na 5ª ou 6ª geração, desfila garbosa pelos corredores do hotel chamegando com quem lhe agrada. Para a alegria dos hospedes e principalmente da memória, o The Algonquin foi novamente restaurado e aberto para o público na semana passada.







Do outro lado da rua, contrastando com o estilo clássico do The Algonquin, o projeto do sempre arrojado Philippe Starck presenteia o público com o Royalton, um hotel de vanguarda como check in instalado dentro de um bar com poltronas, divãs, iluminação de cinema, muita gente bonita, conforto e atmosfera de sonho. Viva o Philippe!


Um pouco à frente, na Rua 46, O mais tradicional restaurante Brasileiro de Manhattan, O Via Brasil, é administrado pelo charmoso e bom caráter Luizinho, mais um mineiro que se deu bem por lá, constituiu uma família americana, ficou milionário de dinheiro e amigos. Sua casa recebe a fina flor do Jet set e tem fregueses como Lisa Minelli que nos períodos de não abstinência, se encharca de caipirinha e o simpático Freddy Cole, irmão do “Unforgettable” Nat king Cole. Ele é louco pela feijoada da casa e por sapatos. Numa tarde de feijoada e caipirinhas, apaixonou-se por um Fernando Pires que ornamentava meus pés. Não o ganhou de presente porque o meu 42 infelizmente não vestia o 46 dele.



 












Estamos numa tarde de domingo. Vamos atravessar a Broadway e seguir em direção à 57, a mais rica e charmosa das ruas da ilha. Nosso destino, o Russian Tea Room. Vamos viver aqui o verdadeiro clima de cultura americana. É a hora do pré-theatre. A grande maioria das pessoas se alimenta de comidinhas leves, sorvem seu chá e preparam-se para assistir um espetáculo em uma das dezenas de teatros das redondezas.


Nessa tarde me preparo para assistir no Carnegie Hall, a última apresentação do, em minha opinião, melhor violinista do mundo; Stéphane Grappelli. E é nesse ambiente de puro glamour que vamos encontrar a primeira referência de nossa Rosa. No final dos anos 70, ainda garçonete do Russian, enquanto Farrah Fawcett, mulher de Lee Majors se envolvia com Ryan O’Neal, um dos melhores amigos do ator, o “Homem de Seis Milhões de Dólares” também dava seus pulinhos. Contou-me ela em um dos nossos longos bate-papos no Rosa’s. “Eles estavam no auge da fama e eu era uma simples garçonete de um dos lugares mais chiques de Nova Iorque. Enquanto tomavam o chá, Majors insistia em experimentar vários tipos de biscoito. Toda vez que eu encostava para servir ele me beliscava na bunda. Até que consegui trocar a praça com uma colega. De repente aquele homem enorme levantou da mesa e me atocaiou no banheiro masculino. Foi o maior vexame”, confessa com indisfarçável orgulho.


Mas conheci Rosa muitos anos depois. Ela, com as economias e gordas gorjetas do Russian Tea Room montara sua própria casa, o Rosa’s Place, um restaurante Mexicano “com um toque da cozinha brasileira”. Entrei ali num começo de noite após patinar por dezenas de quarteirões e pedi uma garrafa de água. Sorrindo e falando um português com sotaque, Rosa me convidou para sentar e aí começou uma bela amizade. Situado na Rua 48 entre a 8th e 9th Avenue, o cantinho da Rosa tinha a receptividade do povo mineiro misturada ao mais puro american way of life. À noite, era o lugar predileto para o after theatre, não exatamente dos espectadores, mas dos atores que encontravam no Rosa’s, aquela mineirice com sotaque americano.

Muitas vezes sentei-me ao bar do Rosa’s para ouvir as confidências e inconfidências da Rosa, ver e ouvir aquela gente libertária que já tinha atitude além do seu tempo, naquele tempo.


Numa das noites, um espetáculo meio macabro me marcou profundamente. Um grupo de atores que costumava frequentar a casa perdeu um amigo vitimado pela AIDS. Na noite que seria a missa de 7º dia, eles se reuniram na mesa de sempre deixando em uma das cadeiras o chapéu e o cachecol do defunto. Em homenagem a ele, riram, comeram e beberam até a hora de fechar o restaurante. No mínimo diferente!


Não sei o qual o destino da Rosa. Soube a cerca de dez anos que ela não estava bem de saúde.

O Rosa’s hoje se chama Sombrero, mantem a mesma filosofia e praticamente o mesmo cardápio. Está bem cuidado e revitalizado. Só falta mesmo a Rosa!

 


Autor: Celso Mathias
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