Laços de Família - Muita coisa que você não sabe sobre esta cidade

segunda-feira, 16 de julho de 2018

Para que a memória da cidade não se perca mais ainda, matéria publicada originalmente em 2 de fevereiro de 2012 - Com Yayá morava a prima Ceci Campos irmã de Belarmino Campos, e de Tidinha, mãe de João e Ismael Abreu. Ceci fora criada junto com as irmãs, Nazinha, Zizinha e Luti. Na medida em que elas foram casando, Ceci que aos quinze anos tivera uma decepção amorosa optou por ir morar com Yayá na Rua dos Ricos. Na foto, da direita para a esquerda,Zizinha,Luti,Yayá, Adelina (irmã de Ceci) e Lourinho, irmão das duas últimas. As crianças, Nonato, Regina, Albertinho e Danuza filha de Zizinha.

Laços de Família - Muita coisa que você não sabe sobre esta cidade



Sempre que passo em determinados pontos dessa cidade, minha memória viaja no tempo em direção ao passado. Dia destes olhei para a descaracterizada fachada da bela casa da Rua da Igreja onde hoje, embora lacrada, estão as instalações da loja do Zezé Calço Pé e fui lembrando de momentos em que pude conviver com o glamour daquele recanto. À frente da casa, havia um reles gramado que se estendia em direção da casa da minha madrinha Divina Maia, onde hoje mora seu filho Hildebrando e seguia até perto da antiga Igreja Matriz já, lamentavelmente, demolida. No gramado rolava sempre uma bola de meia. As exceções eram feitas quando de férias, os filhos de Zeca Dantas traziam boas bolas de borracha para um jogo mais animado do qual invariavelmente participava o Hildebrando.

Mas o melhor de tudo não estava no gramado. Estava exatamente na casa da fachada com uma mistura de estilos que lembra o Art Déco. Ali morava o casal Viriato e Rosália pai das duas mais lindas mulheres que a cidade já viu; Virisália (obviamente cruzamento dos nomes do pai e da mãe) e Celeste. Sempre rondando o pedaço, Torrado, personagem rocambolesca que alimentava um amor platônico pela bela Zalinha (Virisália). Ela casou-se com um engenheiro alemão e foi feliz até morrer precocemente no Rio de Janeiro. Torrado morreu de amor e álcool!

Aquela casa fora construída para abrigar o glamour. Foi ali que nasceram os irmãos José, Antonio e Deusdete. As irmãs Lutigard (Luti), Maria Assunção (Yayá), Alzira (Zizinha), e Ana (Nazinha), filhas de Joaquim Alves Campos e Maria Moreira Campos. De todos, continua viva e saudável, apenas a professora Lutigard, a Luti, casada com o bem sucedido comerciante e fazendeiro Raimundo Tomaz de Aquino. São filhos do casal Nonato, Regina, Marlos e Albertinho, bom advogado e bon vivant!

A figura que quero centrar nessas memórias é a de D.Yayá do Correio que ganhou o apelido por ser a agente da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos em Euclides da Cunha durante algumas dezenas de anos, especialmente na minha pré adolescência.

Eu morava em frente à casa de Yayá onde também funcionava a Agência dos Correios na Rua dos Ricos.

A Rua dos Ricos ocupa a localidade que na primeira metade do século passado era conhecida como Bolandeira. D. Luti, a interlocutora desse passado, comenta com olhar de quem O visita:“Essa terra era toda de minha mãe que a vendeu por um valor simbólico ao então prefeito José Camerino que a comprou para construir a sede da Prefeitura. Ele pagou o equivalente à despesa de três semanas na nossa casa. No início dos anos cinquenta, Raimundo comprou de volta para construirmos essa casa onde estamos até hoje e que foi a terceira da rua. Primeiro foi a Prefeitura, depois a casa do professor Teophilo onde agora mora o médico Aristides Queiroz e a casa de D. Pombinha, hoje existe apenas o terreno que pertence ao Samuel”.

E prossegue emocionada,“Minha mãe, em consequência da fragilidade da saúde de sua avó Amélia, foi mãe de leite do seu tio Zequinha. Nessa pequena cidade, todos temos laços de família. Minha irmã Nazinha, por exemplo, casou com Zé de Apromiano, nosso primo. Já meu pai, era irmão de Apromiano. Somos primos de Renato campos (ex-prefeito) por parte de pai e de mãe. A mãe deles, D. Lili, também era prima do meu marido”.

A casa de D. Yayá tinha muro baixo e um bem cuidado jardim. Uma porta lateral dava acesso à sede dos Correios onde um balcão a separava da clientela. Baixinha, delicada, de pele muito branca e cabelos negros à altura dos ombros, ela atendia a todos com um doce sorriso e sabia exatamente o que e a quem entregar no balcão.

E era uma delícia saborear na língua o gosto da cola do selo que abria a nossa relação com o universo. Sem internet, com um telégrafo precário, sem televisão, a carta era tudo isso junto e muito mais; trazia traços reveladores na caligrafia e às vezes até o perfume de quem a escreveu. Um contrastes absoluto com o que transformaram os Correios, que perdeu, além da confiança da populaçã, a identidade de outrora. Hoje nem o usuário nem os próprios funcionários sabem se aquilo é um banco ou uma agência de cartas e encomendas.

Jovem, bonita e bem sucedida, Yayá teve dois namoricos; com Zuca, pai da prefeita Fátima Nunes e outro com Potámio Batista. Ambos não prosperaram; ela não alimentou a relação.

Com Yayá morava a prima Ceci Campos irmã de Belarmino Campos, e de Tidinha, mãe de João e Ismael Abreu. Ceci fora criada junto com as primas, Yayá, Nazinha, Zizinha e Luti. Na medida em que elas foram casando, Ceci que aos quinze anos tivera uma decepção amorosa optou por ir morar com Yayá que adquirira a casa construída por Santos do DNER na Rua dos Ricos.

Ao contrário da Ceci de José de Alencar, Ceci Campos teve uma vida tranquila. Morava confortavelmente, trabalhava na Cooperativa Agrícola e, ainda por cima, por puro diletantismo, ajudava a prima Yayá no atendimento dos Correios. Quarenta e dois anos depois de ser abandonada, reaparece já viúvo o seu grande amor João Edésio com quem contrai núpcias aos sessenta anos e muda-se para Queimadas com o marido com quem vive até falecer aos oitenta anos.

Yayá morreu em 1997 aos 87 anos de idade, solteira e sem filhos deixando a marca da doçura e do equilíbrio que pautaram a sua existência.

Somos todos órfãos da Rua dos Ricos, onde mesmo os pobres nasciam ricos de esperança, da ausência de preconceitos e com a certeza da igualdade que permeava os nossos corações infantis.

 


Autor: Celso Mathias
Publicação vista 3370 vezes


Existe 12 comentários para esta publicação
sábado, 2/1/2016 por Pedro Quirino
belo artigo
Celso, parabéns pela bela reportagem, todos os personagens fizeram e fazem parte Dodô meu imaginário.
quarta-feira, 8/2/2012 por Marlos Aquino
vó e Tatá (Yayá e Ceci)
É com enorme emoção q diante dessa matéria me deparo à realidade que trago na minha existência. Vó e tatá era como eu as chamava, meus irmãos já as tratavam por "mãe yayá e tatá" Saudade destas mulheres tão importantes na minha vida. Valeu, um abraç
terça-feira, 31/1/2012 por Suzana Athayde A. Montandon
Parabéns à D. Luti
Gostaria de registrar um elogio especial à professora Lutigard, D. Luti, que, através da sua elegância, zelo e memória impecáveis, permitiram o resgate dessas lembranças quase esquecidas no passado.
terça-feira, 31/1/2012 por Debye
Que viagem...
Nossa! quanto parentesco e quantos fatos sobre os quais eu não tina a menor idéia. Uma lição para as novas gerações.Começo a imaginar esses fatos e essas pessoas citadas no seu tempo.Muito interessanteessa leitura. Quero mais!
terça-feira, 31/1/2012 por Irmã Adelina
"RECORDAR É VIVER"
CELSO, foi uma surpresa para mim ver em "LAÇOS DE FAMÍLIA," A FOTO de um importante acontecimento de minha vida... UM ENCONTRO COM A FAMÍLIA, após 48 anos de ausência... YAYÁ, foi uma pessoa muito importante para CECI e para MIM, também !
segunda-feira, 30/1/2012 por deixe o galeguinho falar
Saudades do Cumbe
Hoje 30 de janeiro dia da Saudade,nada mais oportuno que a visita que fiz a revista Brasil e ler o documentário do publicitário Celso Matias que nos leva ao passado ,como se tivessemos vivendo esse passado no presente.
segunda-feira, 30/1/2012 por ´Vanda
Resgate
É impressionante o resgate que você vem fazendo de pessoas e fatos que envolvem essa cidade. Embora more em uma região diferente,parece que conhço muita coisas de Euclides da Cunha embora nunca tenha posto os pés aí. às vezes fico com vontade de ir
segunda-feira, 30/1/2012 por Pensador
Corrigenda
Exclua a interrogação e adicione !
segunda-feira, 30/1/2012 por Pensador
Cara
Por tudo que vc escreve nota-se que vc é absurdamente rico de lembrança e inteligência? Pena, aliás um grande pena por ser muito forte suas matérias e poucos acessos, claro com relaçao ao forte narrado antes.
segunda-feira, 30/1/2012 por Ismael
Minha madrinha Iaiá
Celso, grato pelas ótimas lembranças e uma bela imagem de uma pessoa muito querida e especial, minha madrinha Iaiá.
domingo, 29/1/2012 por Antonio Luiz
Parabenizar
Celso, gostaria de parabenizá-lo pelas reportagens de pessoas que muito contribuiram direta ou indiretamente para o desenvolvimento desta cidade. Como sugestão lhe recomendo reportagens sobre Camerino, Desidério e tantos outros.
domingo, 29/1/2012 por hc-maia
"A Dinastia Global da Comunicação Vem Daí".
Lendo esta matéria,saudosista e emocionante,faço lembrar,caro Celso,que as comunicações da época eram feitas via Rádio Telégrafo,onde Euclides da Cunha já era Global,até pelo Nome de José Marinho..um grande homem,amigo e gozador,juntamente com Zezito
Enviar comentário


Confira na mesma editoria:
O pulsante comércio de Euclides da Cunha e suas peculiaridades
O pulsante comércio de Euclides da Cunha e suas peculiaridades
O novo desafio do juiz Fábio Bastos
O novo desafio do juiz Fábio Bastos
Copyright 2014 ® Todos os Direitos Reservados.