Quando o sexo vira doença

domingo, 30 de julho de 2017

Desejo, ânsia, compulsão. Há quem tenha tido mais de cem parceiros sexuais num só ano. Mas poderá o sexo viciar? Conheça casos em que o sexo falou mais alto... repetidamente. O dramático depoimento de pessoas que não souberam como administrar “a liberdade” pós separação transformando o prazer em angústia.

Quando o sexo vira doença

“Por uma transa  fazemos coisas inacreditáveis. Fica-se cego.” Sérgio, 39 anos, sabe do que fala. Nos últimos três anos passaram pela sua cama mais de 200 mulheres. Altas, baixas, gordas, magras. No que toca ao sexo, não tem dúvidas quando fala da fase pós-divórcio: “É o vale tudo. Fica-se viciado na novidade. É o prazer momentâneo.”

Com o fim do casamento de dez anos, Sérgio viu-se “sozinho, afastado dos amigos, longe dos filhos, numa nova cidade e com necessidade de novos laços”. A blogosfera foi a forma encontrada “para deitar tudo cá para fora”. Inicialmente escrevia um blog de desabafos sentimentais que acabou por “enveredar num cariz erótico e sexual”. Começou a ser seguido por leitoras e daí ao primeiro encontro foi rápido: “Começas por manter o registo antigo e combinas um cafezinho. Mas quando te apercebes que a conversa no computador é 300 vezes mais rápida, vais direto ao assunto. Não há medo de rejeição. O flerte começa com umas simples reticências e termina na cama: Queres? Bora.”

Com o “ego recuperado”, Sérgio foi encontrando mulheres com “a mesma compulsão sexual” e gosto pelo risco. “Estava estacionado num local movimentado e ela atirou-me para cima do carro. Enquanto outras pessoas passavam, começou a fazer-me sexo oral ali mesmo. Puxei de um cigarro e decidi desfrutar.”

Entre o celular e as redes sociais, todos os dias Sérgio organizava a agenda. Num só dia chegou a estar com três mulheres diferentes. “É sexo egoísta. Usas aquela pessoa como objeto do teu prazer.” Embora garanta nunca ter pago a ninguém, tem uma visão prática: “Todos pagamos para ter sexo. Nem que seja os copos que lhes oferecemos.”

Esta obsessão levou-o a falhar compromissos de família e a inventar reuniões para sair do escritório. “Percebi que estava passando o limite quando entrava em pânico por passar um dia sem sexo. Nunca procurei ajuda mas tal como começou, a necessidade de novidade também se esgotou.” Hoje vive um “namoro liberal”, baseado no diálogo. Para trás ficam exageros.

Rita diz o mesmo. Depois de sete meses a mascarar carências afetivas com vontade de sexo, a jovem de 26 anos garante que prefere usar um vibrador a repetir o comportamento de há dois anos

O impulso levava Rita a procurar situações de sedução, “Chegava a ter dois a três parceiros por semana. Por vezes os repetia, mas não queria saber sequer quem eram ou como era a vida deles”. Heterossexual, “mas com um pezinho na bissexualidade”, a jovem envolveu-se com homens e mulheres, por vezes com várias pessoas ao mesmo tempo e invariavelmente levada pelo ímpeto: “Lembro-me de estar num bar com zona privada para quem quisesse ter sexo. Senti aquela vontade, Acabei a ter sexo oral com um homem que nunca tinha visto. Naquele momento imaginei que tanto podia ser com ele ou com um vibrador a me estimular. Afinal, era tudo mecânico”.

Rita conta que esta foi a forma encontrada para compensar a baixa autoestima: “Sentia-me  feia e mal-amada. Não queria envolvimento queria apenas conquistar mas quando chegava a hora, mal sentia vontade. Às vezes fingia os orgasmos. Quando retornava para  casa  encontrava o mesmo silencio e sensação de vazio. Mais que desejo sexual, hoje sei que era desejo emocional. Masturbar-me  não era solução.”

Rogério diz o mesmo. “Podia me masturbar mas o verdadeiro desejo que sentia era pelo risco. Era saber que estava me deixando levar sem pensar nas consequências” Homossexual assumido, agora com 30 anos, relembra a “longa fase de loucura compulsiva” que passou há oito anos. “Não queria saber o nome nem o número telefone. Queria apenas aquilo,” Desde engates de uma noite em discotecas, a “sexo combinado pela Webcam”. Rogério fez de tudo. Tal como Sérgio. “muitas vezes faltou o preservativo”. Conta que em San Francisco, além das míticas saunas gay e bares com o “quarto escuro”. Ha ainda zonas onde se pode parar o carro e simplesmente “propor a quem está ao lado: Vamos dar umazinha?” Rogerio o fez várias vezes. Depois, fumava um cigarro, pegava o celular e já ligava para alguém com quem pudesse estar a seguir. “Era uma bola de neve. Quanto mais sexo tinha, mais queria. O álcool ajuda à desinibição no momento, mas também pode proporcionar sustos. Estava muito bêbedo e fui a uma sauna. No dia seguinte um amigo contou-me que me ouviu mantendo relações e que estava louco. Não me lembro de como fui parar em casa e muito menos com quem estive à noite. Senti-me violado”.

Este e outros sustos fizeram-no “repensar o comportamento”, que se prolongava há mais de dois anos. Não procurou ajuda. Mas admite que lhe custou “controlar a ânsia quando tinha horas livres e não estava na cama com ninguém”. Hoje, assegura que está numa fase calma e que mais que sexo quer partilha emocional. Não se arrepende, mas a verdade é que perdeu a conta de com quantos homens se envolveu até hoje.

Júlia diz o mesmo. Depois de um casamento de 16 anos terminado com uma traição, o sexo surgiu como forma de vingança. “Comecei por dormir com um colega de trabalho e nunca mais parei”. A tristeza deu lugar a um desejo incontrolável e Julia, a essa altura com 43 anos, de repente se viu por ai com a vida de pernas para o ar. “Durante o dia trocava mensagens picantes com vários ao mesmo tempo. Dava-me prazer ver qual conseguia ser mais ousado. E se de dia o trabalho ia sendo posto de lado em prol do flerte, à noite a vida familiar também: Cheguei a receber homens em casa com as crianças dormindo no quarto ao lado e também a sair de casa de madrugada. Sabia que era inconsciência deixá-los sozinhos, mas não conseguia frear a minha libido”.

As retomadas idas It discoteca “rendiam novas conquistas”, principalmente homens “bem mais jovens”. Júlia, hoje com 46 anos ainda não voltou a “criar laços afetivos”. “Tenho amigos coloridos, mas deixei de acreditar no amor. A independência ninguém me tira”.

Pedro Freitas, sexologista clinico ouviu o mesmo: “Ha cada vez mais homens e mulheres que não estão dispostos a partilhar a vida com alguém. Têm vários amigos especiais com quem saem, com quem têm sexo, mas com quem dormem poucas vezes.”.

Por mais que sejam bons parceiros sexuais, o especialista garante que excesso de desejo não é a única patologia. “Já muito se falou de ninfomania e adição sexual, mas a realidade é que o desejo hiperativo não está designado em lugar nenhum como doença.” Contudo, esclarece: “A compulsão sexual é sintoma de um problema, que tanto pode ser uma perturbação de personalidade ou doença psiquiátrica como uma lesão do lobo temporal.”.

Pedro Freitas salienta que depois de uma ruptura a extravasão é comum. “De uma forma mais ou menos saudável, em momentos de fragilidade emocional tenta-se repor as perdas através dos ganhos” e o “sexo é uma forma substitutiva que faz parte deste ritual”.

Assegurando que não existem estudos nem clínicas especificas para o vício do sexo, o sexologista não tem dúvidas quanto a interferência da mídia em casos como o de Tiger Woods que esteve em recuperação da compulsão sexual: “Os divórcios à americana doem. São milhões envolvidos. É mais  fácil dizer que se está doente e adquirir   um mal de nome simpático  como os obsessivo compulsivos, ingerir um leve calmante e convencer a mulher de desistir  do divórcio”.

Mas não menosprezando os casos em que o sexo demais pode ser um problema, avisa: “Devemos preocupar-nos quando não ter sexo diariamente se torna num fator de perturbação ao bem-estar. Quando se começa a falhar obrigações porque se está obsessivamente à procura de sexo, seja ele real ou em sites pornográficos, é momento para parar e pensar.”


Autor: Celso Mathias/Katia Duran
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