Comendo no Nepal

domingo, 30 de julho de 2017

Serpenteamos velozes e ágeis entre carros, motos, táxis, requixas e bicicletas. O condutor sorri cada vez que vê a nossa barriga encolher com medo de ficar espalmada entre duas rodas. As primeiras imagens que temos do Nepal são em câmara lenta. Misturam-se cores, pessoas, fumaça de escapamento, ar abafado e verde. Muito verde. Estamos a dois passos do monte Everest.

Comendo no Nepal

A república mais jovem do mundo tem mais habitantes do que muitas cidades da Europa, dois milhões estão na capital. Os dez anos de guerra civil obrigaram muitos nepaleses a descer das montanhas para Katmandu. Quem sabe não teria sido assim que nasceu um país com comida de rua sempre em movimento? Fruta à venda em bicicletas, salgadinhos preparados em carrinhos de mão, snacks em armários de madeira móveis.

A alimentação de um nepalês é à base de arroz, lentilhas e legumes. O dhal bhat que tantos conhecem como prato típico do Nepal. Cerca de 80 por cento da população vive com menos de dois euros por dia, mas não falta variedade alimentar. Basta olhar para o que vai rolando entre as duas refeições principais. Dentro de um cone de papel serve-se arroz frito com milho e lentilhas, torrados, amendoim, tomate, batata cozida, cebola, malagueta verde, sal e lima. Salpicada com duas colheres generosas de chilli, bem à moda nepalesa das montanhas, o dhal bhat, arroz com lentilhas, é sempre fresco. Preparado de propósito para quem chega. E não há limite de quantidade. Cada um come o que precisa para ficar bem. No Nepal, há tradições rigorosas no que diz respeito à alimentação. A partir do momento em que o arroz é cozinhado, só pode ser tocado pela pessoa que o vai comer. Com duas exceções: a mulher pode terminar o que fica no prato do marido e as crianças têm autorização para comer o que sobra dos pais. A boca fica anestesiada, mas o sabor delicioso consegue acordar as papilas gustativas.

Num pequeno armário de vidro guarda-se pani puri, bolas de farinha crocantes. Recheiam-se com batata e mergulham-se em molho picante antes de se desfazerem na boca. Ao lado, está chaf, uma panela de batata com caldo de legumes e malagueta a fervilhar. Temos a boca ardendo, é hora de mastigar grão de bico espalmado em forma de mini batata frita. Temos de parar por aqui. Daqui a pouco vamos almoçar na casa da família Bhattachan. Precisamos de espaço no estomago.

Tem o sorriso mais puro que alguma vez vimos. Sushil Bhattachan é guia de trekkings para grupos nipônicos. Ele fala melhor japonês, a mulher, inglês. Não quer que fiquemos preocupados, explica. Não estamos o nosso sorriso indica isso. A lição de culinária começa com a preparação de achar de tomate (Cortam-se os tomates em pedaços, depois de bem limpos de peles e sementes, e coloca-se no fundo de um frasco com boca larga. Por cima, as malaguetas esmagadas, uma camada de sal e suco de limão, a cobrir, e assim sucessivamente ate terminar. Rega-se o preparado com o azeite. Tapa-se a boca do frasco com um pano e deixa-se em descanso um mês para fermentar e formar uma geléia, que é muito aromática e muito picante. Serve-se com qualquer prato.)

, onde o peixe seco dá um toque especial. Recebemos um thaali, prato de metal com vários compartimentos, com arroz e os vários acompanhamentos. Galinha, espinafres, achar de tomate, achar de batata e dhaal, claro. Somos nepaleses, por isso não há talheres. Com a mão direita em forma de concha, o polegar vai empurrando a comida boca dentro. A simplicidade nos conquista.


Autor: Celso Mathias
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