A arte da taça

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

Temperatura e taça. Eis os dois principais segredos para uma correta apreciação de um vinho. Hoje é a vez de falar das taças e sua arte. Cobre, estanho, madeira, chifres, tudo servia para beber água, vinho ou remédios miraculosos. No último caso, e assim que eram servidos, dizia-se que a água, o vinho ou o remédio estavam encornados. Beber em chifres fortalecia os guerreiros e os tornava mais agressivos.

A arte da taça



Mas isso era no tempo do "Robin", Idade Média, obscuridade cultural, pobreza, miséria e guerras a torto e a direito. O consumo do vinho, segundo um conceito cultural de apreciação, tinha existido muitos anos antes, em civilizações, entretanto desaparecidas que dominavam a fabricação do vidro. Esse é o material que, pelas suas características inertes e translúcidas, possibilita a verdadeira apreciação de um líquido nas suas vertentes de cor e gosto. Quanto mais fino for o vidro da taça, maior o contato com o vinho que nela é servido. O cristal é, devido as suas características de dureza, brilho e finura, o material que melhor serve o serviço de vinhos. Um metal (chumbo, titânio, arsênio...), carbonato de potássio e areia de quartzo são os componentes que o constituem. Com ele se fazem as taças.

A história do cristal - Pegue em 60 partes de areia, mais 180 partes de cinza e cinco partes de óxido de cálcio. Aqueça a mistura e obterá vidro.

O vidro tem cerca de oito mil anos de história mas tudo o que existia não ia além de pequenas contas. Os primeiros vasos aparecem por volta de 1500 a.C. Foram asiáticos que estabeleceram essa indústria no Egito mas foi na costa Fenícia que a técnica do vidro soprado se desenvolveu no século I a.C. Os romanos difundiram-na e aperfeiçoaram-na. Grande parte das técnicas hoje usadas vem do período romano. Depois foi a decadência geral, com a queda desse império. Na idade média foi a vez dos vidreiros do Norte da Europa sob a influência dos Francos desenvolverem novos métodos de fabricação e a grande glória ocidental da fabricação de vidro deste tempo fica-se a dever aos vitrais religiosos patentes em muitas igrejas medievais.

Foram os vidreiros venezianos da ilha de Murano que primeiro inventaram um vidro com grande transparência e brilho a que chamaram cristallo feito à base de soda pesada. Corria o século Xv. Mais tarde, no início do século XVII, foram dos germânicos que encontraram um vidro feito à base de potássio e óxido de cálcio mais grosso e duro que o cristal. Mais seria em 1676 que o vidro de óxido de chumbo apareceria pela primeira vez através de uma fórmula criada por George Ravenscroft. Era mais suave, mais brilhante e mais durável que o cristallo italiano. A evolução do cristal continuaria até os nossos dias fazendo recurso hoje a outros materiais mais finos e mais resistentes.

A razão da taça - Se é certo que ainda podemos ver no dia-a-dia, o vinho ser servido em copos ditos normais, também não é menos certo que cada vez mais se usam taças não só no seu serviço como também no serviço rigoroso de enófilos e apreciadores. O uso de uma taça tem todas as vantagens na apreciação de qualquer vinho. Uma base circular de sustentação ligada a um pé mais ou menos longo e mais ou menos delgado que se une na sua extremidade superior a um recipiente em forma de tulipa (exceção feita a alguns flutes de paredes oblíquas e retas). O pé oferece uma “"pega”" correta, libertando o recipiente que contém o vinho do contato dos dedos e, consequentemente, das manchas oleosas que podem sujar as paredes da dita tulipa, além de permitir imprimir um movimento de rotação à taça que leva o vinho a rodopiar dentro da tulipa e a libertar mais depressa e intensamente os aromas que contém. A tulipa tem dois fins: o primeiro é "abraçar" o vinho no seu movimento circular sem o deixar sair borda fora e o segundo, e mais importante, procede do diâmetro, mais largo no seu corpo central que no bordo superior, que permite uma concentração dos aromas próxima da sua saída para o exterior onde se encontra o órgão olfativo do provador. Daqui uma conclusão simples: a taça oferece sempre mais aroma que um copo normal. Vantagens e mais valia para um vinho de boa qualidade, desvantagens acrescidas para um vinho com defeito.

Materiais - A indústria de taças de cristal tem evoluído paralelamente ao crescente consumo de vinho de qualidade. Dezenas de desenhos e formas surgem regularmente no mercado de taças. As marcas diversificam a sua oferta ou pelo estilo de vinho ou pela região a que se destinam servir. Hoje temos copos para Bordeaux, para Porto Ruby e para Porto Tawny, um para Riesling, outro para Chardonnay, flutes para champagne não datado e outro para datados, um para vinhos encorpados outro para vinhos pouco encorpados, enfim, uma parafernália imensa com certa variação de preço, qualidade e até de material.

Tradicionalmente uma taça de cristal contém, ou continha, chumbo. Porém a busca, por determinadas empresas, de novos tipos de cristal levou a que outros metais fossem incluídos na lista dos componentes do cristal. O titânio é um desses metais admitidos na fabricação do cristal e, porventura, mais ecológico que aquele. Além disso, parece apresentar maior resistência aos choques e ao atrito.


Um conjunto constituído por uma ou duas taças para tintos, uma para brancos, outra para espumantes e ainda uma última para Porto e licorosos servirá com desembaraço e eficácia a grande maioria das situações, permitindo tirar o melhor partido dos vinhos que apreciamos.

 


Autor: Celso Mathias
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