A alta-costura morreu?

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Não, apenas mudou de nome.A alta-costura passou a ser apenas incógnita. Poucas horas depois da Chanel ter organizado um desfile espetacular de branco invernal com 40 top models e umas centenas de convidados nas grandiosas instalações de um antigo banco da Rue Cambon, um costureiro pouco conhecido chamado Dominique Sirop, apinhou 50 ou 60 jornalistas e fotógrafos no seu minúsculo ateliê da Rua du Faubourg Saint-Honoré...

A alta-costura morreu?



...onde três modelos desconhecidos posaram à vez num estrado rotativo improvisado, revestido sem requinte por um tecido preto. Não havia qualquer resquício de esplendor no ar — o carpete estava gastão e remendado, e não havia empregados a servir o tradicional champanhe —, contudo, cada um dos conjuntos apresentados por Sirop, armados a partir de chiffon laboriosamente drapeado, causou tanto impacto como as maravilhas bordadas e elaboradas que Karl Lagerfeld tinha criado para a Chanel.

Embora a atmosfera na Maison de Sirop fosse definitivamente menos grandiosa do que na Dior, na Gaultier ou na Valentino, o nível de realização estética não foi menos impressionante. Foi-lhe garantida a entrada na elite da Chambre Syndicale da alta-costura, o sindicato francês da alta-costura, que define os critérios rigorosos de design segundo os quais as casas são formalmente acreditadas como sendo de alta-costura. As principais diferenças entre os seus clientes e os da Chanel são que os dele são recebidos num humilde ateliê por uma pequena equipe, em vez de uma mansão dourada servida por um exército de assistentes. E quando, nos eventos sociais, perguntam às mulheres “de quem é esse vestido?”, é provável que a resposta seja “não me recordo”. Mas talvez mais significativo seja o fato de um vestido de noite da casa Sirop custar umas dezenas de milhares de euros — ou seja, uma pequena fração do custo de um vestido da Chanel, onde os estilos mais ornamentados podem ultrapassar os 200 mil euros.


No universo paralelo menor da alta-costura, os estilistas têm apenas a sua confecção para os ajudarem a fazer a sua marca numa indústria obcecada pelos nomes das marcas. Não tendo orçamentos para publicidade, não conseguem atrair a atenção da comunicação social e, consequentemente, a base da sua clientela só pode crescer através do contato verbal. Mas tendo em conta o estado da economia mundial, o seu funcionamento mais leve, com custos indiretos menores e preços mais acessíveis, deixa-nos mais bem posicionados do que nunca para poderem sobreviver. Controlar custos é a chave do seu sucesso. “O preço final da peça é um resultado da reputação da casa mas também do tempo gasto por peça”, diz Stêphane Rolland, outro pequeno costureiro. O seu ateliê adotou uma abordagem mais eficiente, que é a de desenhar e drapear muito rapidamente e depois recorrer a técnicas de corte inovadoras que lhe permitem “manter a mesma qualidade, claro, mas ser mais moderno na realização”.



Becca Cason Thrash, uma proeminente socialite de Houston e uma das clientes mais visíveis de alta-costura, é fervorosa apoiadora dos pequenos costureiros. “Eles são o futuro”, diz ela. “Para além dos preços mais moderados, muitos destes talentos emergentes oferecem um novo enfoque e estão a tentar inovar com muito mais persistência do que alguns dos designers mais velhos.”

Para além de Sirop e Rolland, a lista de talentos desconhecidos inclui Franck Sorbier, Adeline André e Maurizio Galante, que ganharam o estatuto formal de criadores de alta-costura na última década. Membros convidados mais jovens incluem Christopher Josse e Alexis Mabille, considerados fortes promessas. Os seus preços são muito mais baixos do que os dos seus maiores concorrentes: os de Rolland começam em 20 mil euros, com uma média que ronda os 35 mil euros; os de Sorbier e de Josse começam em oito mil, com uma média de cerca de 15 mil euros. Estes preços comparam-se favoravelmente com os do pronto-a-vestir dos designers, que na sua gama mais alta podem custar quase o mesmo — sem o valor acrescentado de um fato feito por medida. Considerando que o preço de um vestido Dior ou Chanel começa por volta dos 100 mil euros, comprar nas casas menores parece ser um bom negócio.

Embora as casas de alta-costura em geral tivessem apresentado um crescimento apreciável em 2008, os lucros entre os costureiros de segunda linha foram especialmente avultados. Desde 2005, as vendas de Sorbier aumentaram cerca de 10 por cento ao ano e as de Josse cerca de 35 por cento; as de Rolland aumentaram 30 por cento entre 2007 e 2008. Sendo talvez o nome de maior sucesso da próxima geração da alta-costura, Rolland conta entre os seus clientes diversos membros das realezas do Médio Oriente, ao passo que Josse e Sorbier conseguiram o apoio de pesos pesados como Ivana Trump. Embora as grandes casas tenham sob o seu comando um enorme pessoal de apoio e uma máquina de marketing — para além de orçamentos de produção que fariam corar estilistas como Rolland — os ateliês menores têm vantagens únicas, tanto no nível de estratégia como de filosofia. “Quanto maior se é, mais difícil e perigoso se torna”, diz Rolland. “Somos uma pequena família — estamos no começo e há um ambiente estimulante. A dificuldade quando se cresce é manter esta mentalidade. Quero manter esta casa humana.” Nicolas Brouet, diretor comercial de Christopher Josse, diz que o objetivo da marca é apelar a um tipo diferente de consumidor de alta costura. “Não nos podemos comparar com a Chanel ou a Dior”, diz ele. “Neste mundo há a necessidade de diferenciação. Toda mundo quer ser especial e uma maneira de ser especial é comprar um vestido de alta-costura. Uma maneira de ser ainda mais especial é visitar os criadores que são menos conhecidos.” Claro que como salienta Didier Grumbach, presidente da Fédération Française de la Haute Couture (Federação Francesa da Alta-Costura), mesmo as maiores casas tiveram de começar algures. “Nos anos 50, os então jovens designers como Dior e Balenciaga competiram com a Worth e a Lanvin”, assegura. “Quando Balenciaga abriu, em 1937, o fez com poucas pessoas. Ungaro começou com quatro costureiras. Todos os grandes nomes começaram naturalmente pequenos.”


Para os estilistas menos conhecidos, a concorrência não vem só dos pesos pesados franceses e italianos, mas também de designers não acreditados, como George Hobeika do Líbano, que se autodesigna “haute couturier”. Cultivaram uma clientela do Médio Oriente que aprecia os seus preços ainda mais baixos, que não se importa com a sua falta de pedigree e um eventual menor nível de acabamento técnico. Neste sentido, as pequenas casas parisienses estão lutando em duas frentes. Mas também se beneficiam da abordagem menos restritiva à alta costura. Clientes do Oriente Médio, russos e, em menor grau, chineses, indianos e sul-americanos eclipsaram largamente os clientes americanos e franceses como o núcleo principal da base de clientes da alta-costura. Atribuem menos importância ao fato de comprarem exclusivamente nos maiores nomes franceses ou de projetarem um estilo de vanguarda. Ainda relativamente munidos de dinheiro novo, estão mais interessados em causar uma impressão imediata.

A própria existência de casas mais discretas é um antídoto adequado às histórias perenes anunciando a morte da alta-costura. Podem não ter um pedigree tão impressionante como a Yves Saint Laurent, mas pelo menos estes costureiros ainda estão de pé. As suas criações podem não aparecer tanto nas grandes revistas de moda como um dos fantásticos vestidos de Galliano para a Dior — mas quem precisa da “Vogue” quando se tem uma mão-cheia de figuras da realeza saudita fazendo encomendas de milhões de dólares? E embora as suas criações sejam por vezes visivelmente antiquadas, eles podem representar a melhor esperança para o futuro da tradição. Ninguém ficará surpreendido se, nos próximos anos, se assistir a uma maior redução das grandes casas, ao passo que estes ateliês de escala reduzida parecem estar preparados para resistir. A alta-costura morreu. Viva a alta-costura.


Autor: Adolfo de Castro
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