Eles estiveram no céu

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Aos 75 anos de idade, Eugene Cernan não fala das glórias do passado. O astronauta norte-americano que entrou para a história da exploração espacial por ter sido o último homem a pisar a Lua, em 1972, prefere falar do futuro das gerações mais jovens e da importância da educação na mobilização da opinião pública para o apoio à conquista do espaço.

Eles estiveram no céu

O último homem a pisar a Lua continua a correr o Mundo aos 75 anos. Mas, em vez das glórias do passado, Eugene Cernan fala dos sonhos do futuro


“Tenho uma grande responsabilidade, fui à Lua, gosto de partilhar essa experiência com as pessoas, a minha história é estimulante, mas não vivo do passado, vivo para o futuro dos meus netos”, esclarece o antigo piloto de aviação da US Navy, que pertence ao grupo restrito dos três astronautas que fizeram duas viagens à Lua (os outros foram Jim Lovell ).

E insiste na importância de realizarmos os nossos sonhos, porque são eles que nos estimulam, que nos entusiasmam, que fazem avançar a civilização. “Desde criança o meu grande sonho era voar”, conta Eugene Cernan, hoje embaixador da Omega, a marca de relógios usada pelos astronautas, que tem baseado uma parte da promoção da sua imagem no prestígio da exploração do espaço e que lançou uma série de iniciativas em todo o Mundo para comemorar os 40 anos da chegada dos primeiros seres humanos à Lua, em Julho de 1969.

Ele ainda conserva o cabelo bem penteado — embora totalmente branco —, as mãos grandes e o ar robusto das fotos oficiais da NASA, quando embarcou como comandante da missão Apollo 17, em sete de Dezembro de 1972, acompanhado por Ronald Evans e Harrison Schmitt. Hoje, a sua missão é outra. “Sou convidado com frequência para conferências e palestras dirigidas a





estudantes, professores, cientistas, empresários e gestores em todo o Mundo, do Japão a Itália, de Malta aos EUA”, afirma Cernan. “Nessas ocasiões partilho a minha experiência de astronauta, a minha vida e os meus pensamentos, e motivo as pessoas, em especial as mais jovens, para a importância da exploração espacial e da descoberta.”

O astronauta é muito crítico em relação a alguns megaprojetos atuais, como a Estação Espacial Internacional (ISS, na sigla inglesa), que além do mais tem conhecido atrasos sucessivos, e faz questão de distinguir claramente o significado de duas palavras aparentemente parecidas, que em português se transformam em uma só: “exploitation” e “exploration” (exploração, nos dois casos). “Exploitation” é usar qualquer coisa de uma forma injusta, é aproveitar-se dela. “Exploration” é um objetivo de grande nobreza, é investigar tendo como objetivo a descoberta. “O que está acontecendo na Estação Espacial é ‘exploitation’, mas eu quero voltar à ‘exploration’, quero que o Homem vá onde nunca esteve antes.”

Eugene muda de repente de entrevistado para entrevistador, bombardeando-me com perguntas. “Você sabe quantas pessoas estão neste momento na ISS? Sabe o nome de alguma delas? Há um Vaivém Espacial que parte dentro de dias. Você consegue dizer o nome de algum dos seus tripulantes? Não consegue, pois não? Pois eu também não... Mas sabe quem foi John Glenn ou Neil Armstrong, não sabe? É essa a diferença!” Ou seja, eles foram os pioneiros.

E o interrogatório continua: “Qual é a diferença entre o que eu fiz e o que esses navegadores fizeram há 500 anos? O lugar é o mesmo, a Terra é a mesma, somos todos exploradores, fomos onde ninguém tinha ido antes.” E se pudéssemos pôr lado a lado Neil Armstrong e Vasco da Gama, por exemplo, “fazíamos as mesmas perguntas: quando partiu para a sua viagem pensou que ia regressar?, estava com medo?, imaginava que ia chegar até ao fim do Mundo?, o que sentiu quando pisou uma nova terra?...”

A exploração e a descoberta são sempre uma procura de conhecimento, as perguntas são sempre as mesmas, não há diferenças entre épocas, e o que nós recordamos “não são as tecnologias que permitiram essa exploração e essa descoberta, porque amanhã estarão obsoletas”, mas as pessoas que as concretizaram. “Quando fomos à Lua abrimos a porta para os que seguissem os nossos passos poderem ir a Marte, e o Vaivém Espacial e a Estação Espacial Internacional não são uma etapa intermédia, são grandes projetos científicos de cooperação internacional” onde se pode aprender mais sobre os efeitos fisiológicos e psicológicos de uma permanência prolongada de um astronauta no espaço ou noutro planeta “mas que não vão a lado nenhum, não entusiasmam as pessoas, não despertam paixões, não as fazem sonhar”.

O sonho de criança do astronauta era voar, e o sonho do pai, Ondrej Cernan, era dar-lhe uma educação adequada, que ele nunca pôde ter. “E os dois sonhos, lado a lado, permitiram que eu um dia fosse à Lua.” Ir à Lua ou a Marte será sempre um estímulo educacional “que pode inspirar os jovens a sonhar, a quererem fazer aquilo que nunca foi feito”. Por isso, “a verdadeira herança que nós deixamos não é a tecnologia que permite voar até ao espaço, mas antes a inspiração que podemos dar a muita gente para realizar os seus sonhos”.

Mas a realidade não está nada fácil. A NASA tem planos para regressar à Lua em 2020, só que a crise econômica e financeira tem estado a dificultar a aprovação pelo Congresso norte-americano dos fundos necessários ao programa de vôos tripulados da organização. “Temos visto dinheiros públicos aplicados nos EUA em projetos que são questionáveis, quando uma parte dos investimentos do Estado para estimular a economia e criar empregos poderia ser aplicada na indústria e nos programas espaciais”, sugere Cernan. E salienta que a opinião pública tem muitas vezes a ideia de que os gastos na exploração espacial são demasiado elevados, “mas, se fizermos as contas, o programa espacial custa menos de um por cento dos impostos pagos pelos contribuintes”.


Autor: James Dollinger
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